Luiz Morando nasceu em 1964, em Carangola, cidade da Zona da Mata mineira. Em 1984, fixou-se em Belo Horizonte, onde se tornou licenciado em Letras (1989) pela UFMG. Em dezembro de 1992 tornou-se Mestre em Literatura Brasileira com a dissertação “Transgressores e transviados: a representação do homossexual nos discursos médico e literário no final do século XIX (1870-1900)”. Em 1997, tornou-se Doutor em Literatura Comparada com a tese “As duas faces da moeda: uma leitura da obra de Aluísio Azevedo”. Ambos os títulos foram obtidos na Faculdade de Letras da UFMG.
Atuou na docência no Ensino Superior entre agosto de 1999 e dezembro de 2020, ministrando aulas de Literatura Brasileira e Teoria da Literatura. Atualmente, trabalha de forma autônoma como revisor de textos.
É co-fundador do Museu Bajubá (www.museubajuba.org), um museu virtual de preservação da memória dos territórios de resistência e sociabilidade LGBTI+.

Luiz – Em geral as pessoas pensam que eu sou historiador. Pelo menos formalmente, de formação, não sou. Eu sou por outras vias, como vocês verão ao longo do meu relato.
Por volta de 87, 88, comecei a abrir uma bifurcação na minha formação, porque eu já tinha interesse, em função da minha própria orientação sexual, em trabalhar com a questão das homossexualidades.
Naquela época, na década de 80, não existia ainda essa sigla que hoje nós utilizamos para nos referir a essa população de dissidentes de sexo e de gênero — LGBTQIAPN+ —, a versão mais atual da sigla. Não invalida o uso de outras siglas como LGBT apenas, LGBTQIA+, LGBTI+.
Comecei a criar um acervo de natureza diversificada relacionado à cultura LGBTQIA+ brasileira. Ele se constituiu de recortes de jornais com notícias sobre diversidade sexual e gênero; revistas voltadas ao público LGBTQIA+; panfletos e fôlderes destinados a esse público; livros, brochuras e documentos de natureza diversa. Este meu interesse acabou influenciando no meu trabalho de mestrado.
No final dos anos 70 estava chegando no Brasil a Teologia da Libertação.
“A Teologia da Libertação é uma corrente de pensamento cristão que surgiu na América Latina, unindo a fé católica à preocupação social com os pobres. Ganhou adeptos principalmente nas Comunidades Eclesiais de Base. Nasceu após o Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín (1968), em um cenário de pobreza extrema e governos ditatoriais na região”
Essa corrente, muito voltada para a questão dos direitos humanos, foi logo associada a um viés comunista, a um viés transgressor. Vivíamos o período da ditadura militar. Eu era adolescente, vivendo no interior, não entendia muito bem disso. Mas acabei me envolvendo nessa questão social relacionada à igreja. E sempre guardei em mim essa vontade, esse interesse, essa disponibilidade em trabalhar com o movimento social, mesmo não mais associado à igreja.
Então, em 1990, acabei perdendo um tio em Carangola, em decorrência da AIDS, e fiqueimotivado a retomar esse trabalho social. Junto com um amigo, procurei o GAPA — Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS, aqui em BH. Era a primeira organização não governamental voltada à luta contra o HIV/Aids no Brasil, fundada em 1985 em São Paulo, num período em que não havia infraestrutura suficiente no setor público de saúde para receber, para acolher pessoas com HIV ou já em desenvolvimento dos sintomas clínicos da AIDS. Era muito reconhecida na época. Aqui em BH o GAPA foi fundado em 1987.

Entre outubro de 1992 e dezembro de 2014, durante 22 anos, desempenhei trabalho voluntário no GAPA. Atuei, principalmente como palestrante, na área de educação e prevenção ao HIV/AIDS. Havia uma grande demanda vinda das escolas, das associações comunitárias, das empresas, para fazer palestras de 50 a 80 minutos que esclarecessem o contexto do aparecimento da doença e as formas de contaminação, as formas de prevenção. No caso das empresas, a gente pedia um salário-mínimo como doação ao GAPA, e nos outros casos solicitávamos alguma doação de material de escritório. Algo que pudéssemos utilizar no dia a dia do funcionamento da sede.
PRIMEIRO PROJETO DE PREVENÇÃO DE HIV/AIDS EM BELO HORIZONTE
Existia muita demanda. O primeiro projeto de prevenção ao HIV/AIDS voltado exclusivamente para o público homossexual masculino e bissexual masculino foi o GAPA quem desenvolveu. Eu e o Roberto Chateubriand, que também era um voluntário, criamos o projeto “Sexo, Prazeres”, financiado pelo Ministério da Saúde para ser executado de 1995 a 1998. Era inédito. Até então não existia nenhuma ação comunitária de movimento social voltada para esse público na capital. Isso é importante deixar marcado também.


Fotografias Nívia Dias – Jornal “Estado de Minas” – 29/6/1996, respectivamente.
PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO DO MOVIMENTO LGBT EM BELO HORIZONTE: 28 DE JUNHO DE 1996
O movimento LGBT organizado aqui em BH vai surgir a partir de 1997. Houve tentativas anteriores, mas não foram bem-sucedidas. Então, comparado ao movimento nacional, que é do final dos anos 70, aqui em BH o surgimento é muito tardio.
A primeira manifestação do orgulho gay aconteceu na Praça Sete, em 1996, organizada pelo GAPA. A repórter Jalmelice Luz, do jornal Estado de Minas, noticiou o acontecimento da seguinte forma, conforme imagem acima:
“Pela primeira vez em Belo Horizonte, gays, lésbicas e simpatizantes mostraram a cara, sem receios durante manifestação na Praça Sete, em comemoração ao Dia Mundial da Consciência Homossexual. Uma faixa de mais de dois metros de comprimento foi exposta no quarteirão fechado da Rua Rio de Janeiro, onde foram relacionados os nomes dos 53 homossexuais, homens que faziam sexo com homens, assassinados em Minas Gerais, de 1968 a 1995”
Não chegou a ser uma parada, uma marcha, uma passeata. Nós ficamos fixos ali na Praça Sete, mas foi a primeira manifestação dessa data em que se comemora o Dia do Orgulho LGBT. Mas naquela época a gente falava Dia do Orgulho Gay, que é uma referência a data da rebelião de Stonewall.
“A Rebelião de Stonewall foi uma série de protestos espontâneos da comunidade LGBT contra uma violenta batida policial nas primeiras horas do dia 28 de junho de 1969, no bairro de Greenwich Village, em Manhattan, em Nova York. É considerada um marco que ajudou a desencadear o movimento atual pelos direitos civis LGBTQIAP+”
E aí eu já posso começar a falar de outra frente do meu trabalho: aquela dissertação de mestrado que eu concluí em 1992. Inédita na UFMG e no estado, foi a primeira dissertação na área de Letras que trabalhou com análise do discurso literário relacionado ao discurso médico na literatura brasileira do final do século XIX, privilegiando o estudo de personagens homossexuais na nossa literatura.
Era um assunto que não era considerado muito relevante, elegante de ser conduzido naquela época no curso de Letras, numa universidade federal. Mas foi um marco, embora a própria universidade nem tenha muita consciência disso.
No GAPA, eu passei a conviver muito com pessoas do segmento gay, segmento de pessoas trans, segmento de travestis. Passei a me interessar principalmente pela memória LGBT de BH. Eu nunca tinha ouvido falar, por exemplo, em Cintura Fina, uma personagem que chegou aqui em 1953, viveu aqui até a virada dos anos 70 para os anos 80. Foi uma travesti que marcou muito a memória, acabou se tornando uma espécie de lenda, de mito na cidade.
Dentro do GAPA comecei a ouvir também sobre um crime cometido no Parque Municipal, e isso acabou, muitos anos depois, dando origem a dois livros que eu escrevi: um relatando a biografia de Cintura Fina, outro relatando a história que ficou conhecida como Crime do Parque, e que foi muito importante, não pelo crime em si, mas pelo que o crime revelou, que existia esse território de sociabilidade LGBT na cidade desde a década de 1940.
RECONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA LGBT EM BELO HORIZONTE
Então, nos anos 90 eu comecei a ficar muito interessado em reconstruir a memória LGBT da cidade. Não havia nenhum trabalho relacionado a isso, não havia, ao menos que fosse do meu conhecimento, nenhuma pessoa atenta, interessada em resgatar essa memória. Então eu transformei o interesse numa pesquisa sistemática, independente e autônoma, que já dura 26 anos, cobrindo todo o século XXI. Não está vinculada a nenhuma instituição pela qual eu passei. É um volume de informação que é baseado em três eixos: jornais, processos judiciais e relatos orais.
PRIMEIRO EIXO: JORNAIS DE BELO HORIZONTE
Eu precisava ter um ponto de partida para resgatar a história do Crime do Parque, que aconteceu em dezembro de 1946: um homem foi esfaqueado, no Parque Municipal, principalmente na região da garganta e no alto do tórax, o que já acaba revelando violência passional. Foi um crime escandaloso para a época, relacionado a questões morais e questões sexuais. Se houvesse uma repercussão tão intensa assim, a imprensa me daria material para pesquisa.
Então, a partir de 2002, 2003, visitei uma vez por semana, o dia inteiro, a hemeroteca da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa. Hemeroteca é o setor onde ficam reunidos os jornais em papel. Atualmente estão arquivados também em microfilme e digitalizados, mas naquela época só existia o papel disponível. E a única forma era pegar os jornais dia a dia e ficar folheando, folha a folha, de cada mês, de cada ano: 1946, 47, 48, daí por diante.
SEGUNDO EIXO: PROCESSOS JUDICIAIS
Retomo o Crime do Parque, analisando um processo em cinco volumes, que está no Tribunal de Justiça de Minas, no arquivo do Judiciário. Por volta de 2005 eu tive autorização para xerografar. Então eu pude ler com calma e vi que, de fato, é uma preciosidade. Reúne os depoimentos de 13 homossexuais que foram chamados à delegacia entre fevereiro e maio de 1947 para depor, para falar como eram aqueles encontros que ficaram conhecidos como Paraíso das Maravilhas.
Então esse tipo de registro é precioso, porque é algo muito raro encontrar em décadas muito passadas, na primeira metade do século XX e claro, nos séculos anteriores. São cartas, diários, depoimentos na polícia. Sabe-se o que é estar diante da autoridade policial: causa constrangimento, causa mal-estar, ninguém fica à vontade para falar sobre sua vida particular. São depoimentos ricos demais.
Como os jornais acabavam relatando outros crimes envolvendo pessoas LGBT ao longo dos anos 1950, 60, 70, 80, eu passei a pedir o desarquivamento de outros processos. Por exemplo, para escrever sobre Cintura Fina, embora ela nunca tenha matado ninguém, cometeu pequenos delitos como furtos, roubos, lesões corporais… Então, pedi o desarquivamento de 14 processos dela.
Cheguei a ler um pouco mais de 100 processos de diversos crimes. Esses crimes acabam revelando muito sobre as formas de convivência, de constituição de sociabilidade LGBT aqui na cidade.
Como foi denominado por eles próprios, naquela época, o Paraíso das Maravilhas era uma área dentro do Parque Municipal onde aqueles homens se encontravam à noite, de madrugada, para interagir, para criar formas de sociabilidade e, também, claro, praticar e ter, fazer ali interação sexual e se reconhecer do ponto de vista identitário.
Ali eles desenvolveram um código próprio; relações afetivas, eróticas e de amizades.
Desde 2025, durante o período de outono/inverno, quando as chuvas dão uma trégua, realizo um tour, guiado, gratuito, ao Paraíso das Maravilhas, uma vez ao mês, entre junho e outubro. Do ponto de vista atual, é importante recuperar e homenagear a memória desse local e de seus frequentadores como forma de observar traços de resistência do público LGBTQIAPN+ que já circulava pela cidade na década de 1940.
TERCEIRO EIXO: RELATOS DE PESSOAS LGBT COM MAIS DE 65 ANOS
Ouço relatos orais de pessoas que vivenciaram a construção de sua sexualidade em Belo Horizonte nos anos 1960 quando eram adolescentes, nos anos 1970 quando eram jovens. Era preciso acrescentar mais informações ao que os jornais e os processos registraram.
Ao chegar às camadas mais altas, a polícia desviava a investigação para outros caminhos. No caso do Crime do Parque, havia a possibilidade de investigar a família da cunhada de Juscelino Kubitschek, Maria Luísa, que era sabidamente amante da vítima, do homem que foi encontrado com 28 facadas. Mas a polícia não investigou, não quis se aproximar desse ponto. Havia outras pessoas possivelmente envolvidas, da alta sociedade, que a polícia também não quis incomodar. Preferiu investigar as camadas mais baixas: um dançarino de cabaré que também era cafetão de uma prostituta na Rua Guaicurus.
Mas, em geral, se debruçam sobre crimes limitados a uma camada média, média-média e média-baixa da população, ou a camadas pobres; principalmente quando são crimes que envolvem travestis, que são pessoas que não demonstram ascensão social visível em sua história de vida.
Por outro lado, você tem nas páginas policiais dos grandes jornais, parte das matérias associadas à população LGBT e uma pequena parcela nas páginas dedicadas ao campo artístico cultural.
Então, nos anos 1950, já se vê alguns atores declaradamente homossexuais, como Ezequiel Neves e Carlos Kroeber, atuando no Teatro Mineiro de Arte (TMA), no Teatro Universitário da UFMG e no Teatro Experimental.
Um grupo de pessoas apareciam nos cadernos culturais nos anos 50, 60, 70, oriundas de uma classe média, média-média ou média-alta. No colunismo social, o Eduardo Couri começa com o Showçaite, lá no início dos anos 60. E havia o José Maurício, um outro colunista social gay aqui da cidade. Nada era comentado em público, mas à boca pequena todo mundo sabia.
DOAÇÃO DO ACERVO PARA A UFMG
Eu atravesso todos esses anos do século XXI traçando um perfil socioeconômico dos envolvidos, originando um acervo muito extenso.
Então, em março de 2019, com a mediação do professor Marco Aurélio Prado, fiz a doação do que eu havia constituído para o Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da Fafich/UFMG. Em 2023 foi formalizado pela congregação da faculdade, como Acervo Especial LGBT+ Cintura Fina.
Tem outros acervos ali, mas o material que eu doei é o material mais expressivo, não apenas em maior quantidade de itens, mas também por abarcar um período temporal mais amplo: livros relacionados à área de gênero e sexualidade, não apenas livros contemporâneos, mas também livros mais antigos.
Oportunamente enviarei o acervo digital que será a base para uma coleção de cinco volumes que eu vou preparar sobre a memória LGBT de BH entre 1917 e 1989. Serão reconstituídos 72 anos de cultura, de memória e patrimônio LGBT da capital de Minas Gerais.
CAPITAL ATREVIDA EM TERMOS DE SEXUALIDADE
BH sempre teve o rótulo de cidade conservadora, moralista, retrógrada. Eu acho um pouco exagerado. Repete-se um mote que foi imposto à cidade e a seus moradores de uma maneira mecânica.
O próprio Paraíso das Maravilhas já era um território escandaloso para a época, década de 1940. Tinha que haver uma discrição, claro. Ninguém quer expor a sua orientação sexual publicamente.
Belo Horizonte, desde os anos 50, já mostra sinais, já tem indícios de que, do ponto de vista comportamental ligados a gênero e sexualidade, já era um pouco atrevida, ousada, e muitas vezes nessas questões não deixando nada a dever a Rio e São Paulo.
É claro que a cultura LGBT, carioca, sempre foi uma referência indiscutível para todo o país.
Em 1966, já havia uma tentativa de formação de um grupo homossexual organizado, que se chamaria Associação dos Libertados por Amor.
Pois é! É um nome engraçado, mas era o nome que foi escolhido na época. E isso só não foi adiante porque a repressão impediu. A polícia tentou descobrir quem eram os afeminados que estavam promovendo essa associação.
E o ponto de encontro era num bar, inaugurado em novembro de 1961, na sobreloja do Edifício Maletta. Com o status de primeiro local de frequência exclusivamente LGBT, em 1963, o local recebeu o nome de Nosso Encontro.
Mas o movimento social organizado LGBT só surgiu aqui, trinta anos depois, em 1997.
Quatro campos então se associam: o discurso religioso, o discurso policial, o discurso judicial e o discurso social. De uma maneira profunda, de uma maneira intensa, se aprimoram no trabalho de repressão a isso que nós chamamos de sexualidades dissidentes.
TERMOS DEPRECIATIVOS PARA IDENTIFICAR OS GAYS
No passado, a imprensa, a polícia e o discurso judicial tratavam essa população como “invertido” — era um termo muito comum. A imprensa usou também os termos anormal, pederasta, terceiro sexo, além de bicha e veado até o início dos anos 80, principalmente naqueles jornais mais populares. Eram termos muito depreciativos e que a população usava sem nenhum critério, sem nenhum filtro, como se fosse algo comum.
Isso tende a mudar e, de fato, foi mudando, quando se começa a formar um movimento social mais reivindicativo de seus direitos, mais escandaloso no sentido de fazer atos públicos, de pisar firme. E nesse ponto o GGB, o Grupo Gay da Bahia, inegavelmente foi uma peça muito importante. O Luiz Mott, um dos fundadores daquele grupo, foi fundamental para dar essa guinada nessa luta por direitos iguais. O número de ONGs LGBT dá um salto enorme no país. Começa nos anos 80 com algumas dezenas que não chegam a 50 e termina nos anos 90 com algumas centenas que ultrapassam 300. É um grande salto em termos de organização social espalhada por todo o país, não está concentrada apenas em uma região.
Então, teve maior investimento na formação e na organização das ações e na relação desse movimento social com o movimento político. Percebeu-se, no final dos anos 1990, que era necessário politizar, eleger candidatos, seja vereador, deputado, seja lá o que for, dessa população específica.
A GARANTIA DOS DIREITOS POR INICIATIVA DO STF
A grande mudança desses direitos vem com iniciativas do Supremo Tribunal Federal. De dois em dois anos, nota-se o acúmulo de mudanças promovidas:
| Conquistas promovidas pelo STF |
| a) Em 2011 reconhece a união estável entre pessoas do mesmo sexo |
| b) Em 2013 converteu a união estável em casamento civil |
| c) Em 2015 permitiu a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo |
| d) Em 2019 autoriza pessoas trans a mudarem o seu nome no registro civil, sem precisar de relatório de uma equipe multidisciplinar dizendo que aquela pessoa era de fato pessoa trans |
| e) Em 2021 autoriza a doação de sangue por pessoas LGBT |
Então, temos um cenário de conquistas acelerado e crescente desde 2011. Em contrapartida surgiu, principalmente a partir de 2015/ 2016, uma onda neoconservadora baseada no discurso em defesa da família tradicional, religião e bons costumes.
Cria-se um conflito entre essas notáveis conquistas e um contramovimento: um freio, um choque, que sempre se torna uma ameaça.
Agora, em 2026, estamos vivendo esse período eleitoral em que pelo menos cinco candidatos a presidente que são de uma linha conservadora — prometem, de uma maneira ou de outra, frear essas conquistas LGBT dos últimos anos.
OS JOVENS NA COMUNIDADE LGBT
Isso acaba sendo contraditório com o que a gente vê com essa faixa mais jovem da população LGBT e, que eu vejo com muita positividade. Andam na rua de mãos dadas, trocam afeto em meio ao público, vestem-se da maneira como querem, expõe a sua identidade de gênero, o seu gênero fluido. Muitas vezes, são jovens que não se enxergam nem com o gênero masculino nem com o gênero feminino.
Então, é um choque muito frontal, muito claro, com uma juventude que não endossa esse discurso neoconservador.
Quando veem alguma informação sobre pessoas LGBT nascidas nos anos 60, 70, 80, eles: ‘Mas isso já existia nessa época?’ Como se pessoas LGBT só existissem a partir da virada do século XX para o século XXI. Isso é bem típico de toda pessoa muito jovem.
VIOLÊNCIA CONTRA PESSOAS LGBT
Por outro lado, todas essas conquistas ainda não foram suficientes para frear o número de mortes, o número de assassinatos contra pessoas LGBT. O Grupo Gay da Bahia já faz essa computação há longo tempo. Nos últimos 10 anos a ANTRA — Associação Nacional de Travestis e Transexuais — passou a usar uma metodologia ainda mais refinada que a do GGB, e a gente constata que é um número que, quando não cresce, estaciona num patamar ainda elevado de assassinatos de pessoas LGBT.
A cultura brasileira e, abrindo um pouco mais, a cultura latino-americana, com relação à questão LGBT é uma cultura ainda muito violenta, que inspira ainda muito cuidado, muita atenção, muito temor por parte dessas pessoas, porque não há ainda nenhum mecanismo seguro, satisfatório, eficiente, que barre, que interrompa essa escalada de assassinatos.
A mesma coisa acontece com o feminicídio, embora existam ali diversas estruturas e dispositivos na lei para barrar as agressões. Está entranhado na cultura masculina essa percepção de que a mulher é uma propriedade, é um objeto, e pode ser agredida dependendo do humor do seu companheiro, do seu ex-companheiro, dependendo do humor de algum familiar que veja nela um alvo frágil para a violência.
Algo semelhante acontece com a população LGBT: ser vista como um alvo, um ataque de violência ainda muito persistente entre nós, e com mecanismos e dispositivos ainda insuficientes para barrar esse grau crescente de selvageria.
A REPRESENTAÇÃO NAS ARTES


Escritor Caio Fernando Abreu – Literatura Infanto Juvenil | Filme
A representação nas artes tem mudado muito positivamente. Na música, no teatro, na dança. No cinema o número de filmes com essa temática tem ganhado visibilidade. No Festival de Gramado de 2026, 03 filmes com temática LGBT estavam na mostra competitiva. Feito Pipa, direção de Allan Deberton, focado na infância queer, foi destacado como Melhor Filme pelo Júri Popular e, no Festival de Berlim 2026, recebeu dois prêmios: Urso de Cristal de Melhor Filme e Grande Prêmio do Júri Internacional.
Na literatura isso tem se tornado muito comum: a presença de personagens LGBT ou a própria obra literária ter como tema central a questão LGBT, e de uma maneira nova, sem estigma, sem estereótipo. Isso começa a ser claramente quebrado na literatura nos anos 1980, com escritores que até hoje são referência para nós: Caio Fernando Abreu, Herbert Daniel, Silviano Santiago e João Silvério Trevisan.
Uma literatura LGBT infantil e juvenil tem despontado com uma certa força e tem sido muito importante para esclarecer, para sensibilizar, para colocar mesmo para reflexão, que é o papel da literatura. Tem sido alvo também de muitos ataques por parte da corrente neoconservadora. Importante é fazer com que o ser humano, o leitor, redimensione o seu lugar no mundo. Então eu gosto muito dessa literatura nascente aí, essa literatura queer.
OS ESTIGMAS
Uma grande parte desses estigmas sociais foram naturalizados: ‘Ah, é normal chamar alguém de veado independente da orientação sexual dele‘. Por meio de algum xingamento, uma forma de depreciação, né? Mesmo entre adolescentes é muito comum, né? Um chama o outro: ‘Ô veado, não faz isso não, veado’ ou bicha. No caso do veado, é porque você tem aí um rebaixamento duplo, né? Você tem o rebaixamento do xingamento em si e o rebaixamento de colocar em dúvida seja a masculinidade, ou a virilidade, ou a potência sexual, ou seja, lá o que for, até mesmo evidenciar a possível passividade daquele sujeito.
De um lado temos graus variados de normalização que esses termos adquiriram na nossa cultura. Por outro lado, temos um processo de má vontade, de indisposição de mudar um hábito inadequado.
Antes, o sistema cultural era um sistema binário, um sistema erótico-sexual estruturado. E hoje o ponto de vista da perspectiva erótica e sexual mudou. E causa indisposição. E isso é geracional, a gente ainda vai precisar passar por duas ou três gerações para que esse tipo de debate seja mais palatável.
SEXUALIDADES DISSIDENTES
Gerações mais velhas falam assim:
‘Ah, mas na minha época isso não existia, não. Não existia travesti, não existia pessoa trans. Isso, na minha época isso não existia não’.
Essas pessoas viviam fechadas em casa e não liam jornal, não faziam nada, não tinham nenhum contato com o mundo externo, ou essas pessoas falam isso de má-fé? Falam isso de uma maneira desonesta consigo mesmas e com o contexto no qual elas viviam.
Vejam esse caso que se tornou bastante conhecido e será tema de meu próximo livro: ‘Edmundo de Oliveira: Um Homem Trans em BH (1930-1980)’. É uma pequena biografia que redigi sobre essa pessoa que viveu aqui na capital e aqui se casou. Ele nasceu em 1914, no interior de Minas, veio para cá no começo dos anos 30 e morreu em 1981.
Então não é possível falar que “na minha época não existia sei lá o quê”.
TRATAMENTOS DE AIDS
A ciência avançou muito, não na direção da busca de uma vacina. Ainda não há vacinas.
O tratamento se reduziu a um comprimido por dia. Um antirretroviral (ARV) para combater e manter baixa a carga viral no corpo da pessoa infectada. Isso é uma grande mudança.
Hoje temos dois mecanismos para reduzir o número de infecção:
1 – PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) / 2 – PEP (Profilaxia Pós-Exposição)
São estratégias de prevenção ao HIV oferecidas de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) do Ministério da Saúde
Você pode tomar regularmente, não pode ser só uma vez. Você tem que tomar todos os dias antes de algum contato que possa te expor à transmissão do vírus.
Então isso, principalmente para a população jovem, é uma grande saída, né? Mas sempre tem que haver essa regularidade no uso deste medicamento.
| O Que é a sigla LGBT? |
| Há três orientações sexuais: |
| L: lésbicas são mulheres que sentem atração sexual, emocional e afetiva por outras mulheres. |
| G: gays são homens que sentem atração sexual, emocional e afetiva por outros homens. |
| B: bissexuais são pessoas que sentem atração sexual, emocional e afetiva tanto por homens quanto por mulheres. |
| Há várias identidades de gênero, dentre as quais destacamos: |
| 1 – Cisgênero: pessoas que se identificam com o sexo e o gênero atribuídos no nascimento. |
| 2 – Transgêneros: pessoas que não se identificam com o sexo e o gênero atribuídos no nascimento: |
| a. T: travestis são pessoas designadas como homens no nascimento que se identificam com feminilidades/mulheridades; por isso, sempre devem ser tratadas no feminino.b. T: transexuais são pessoas que nãos e identificam com o gênero atribuído em seu nascimento, adotando uma identidade e performatividade do gênero oposto.c. NB: não bináries são pessoas que rejeitam e nãos e reconhecem no sistema binário de gênero, inclusive na linguagem que usam, adotando o gênero neutro. |
| 3 – I: Intersexo é a pessoa que apresenta uma variedade de condições nas quais a anatomia sexual e/ou reprodutiva não se enquadra nas definições tradicionais de fêmea ou macho. Uma pessoa pode nascer com elementos dos dois sexos biológicos, porém as características nem sempre estarão visíveis. |
| 4 – Q: Queer é um termo mais amplo usado para referir a pessoas cuja orientação sexual e identidade de gênero não seguem os padrões tradicionais das cisgeneridades. |
| 5 – A: Assexuais são pessoas que não sentem atração sexual, emocional e afetiva por outras pessoas. |
| Fonte: Identidades de gênero. Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis. UFMG. Disponível em: https://www.ufmg.br/prae/diretoria-de-acoes-afirmativas/identidades-de-genero/. |
O dramaturgo alemão Bertolt Brecht tem um poema, do qual transcrevo alguns versos logo abaixo, que divide os lutadores pelo tempo de dedicação a uma causa justa ou ao bem comum. Valoriza a entrega contínua em prol de transformações sociais e da justiça. Diz assim:
Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis.
Luiz Morando, o nosso entrevistado, pertence à categoria dos imprescindíveis.
LIVROS PUBLICADOS


Livros publicados por Luiz Morando
– Paraíso das Maravilhas: uma história do Crime do Parque (2008, Editora Fino Traço). Autor: Luiz Morando
https://www.finotracoeditora.com.br/paraiso-das-maravilhas-uma-historia-do-crime-do-parque
Também na Amazon
– Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte (2020, Editora O Sexo da Palavra). Autor: Luiz Morando






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Matéria sensacional