Hoje acordei vendo bocas! Olhei para o teto e vi toda sorte de bocas que havia no mundo. Fui ao trabalho e não via nas pessoas nada que não fossem suas bocas. Causou-me surpresa a diversidade de formas que as bocas podem tomar. Muito, mas muito mais que um simples arqueamento de duas linhas que se unem pelas pontas e que se modificam com as várias intenções e palavras das pessoas.
Olhei para Jane e vi sua boca riscada, um nada de carne, que se põe a despejar palavras como se o mundo fosse um mundo de ouvidos. A boca de Jane quase não tem lábios, é um oco, um buraco que se abre na parte sul do rosto com a propriedade de soltar sons. Entretanto, foi na boca de D. Virgínia que passei algum tempo em devaneio. Sua boca, cavilosa, é também deslabiada! Mas ao completar o cabelo postiço e a sobrancelha artificial, tem também a marca indelével de um batom carmim a fazer as vezes dos lábios tímidos, de vida plástica. Há uma série de rugas que se irradiam a intervalos quase que regulares de cada arco dos finos lábios cosméticos e dois sulcos profundos que saem, um de cada rima, em direção ao queixo. Olhando assim, meio que rápido e desavisadamente, essas duas fortes rugas dão à D. Virgínia uma certa feição canina.
Nesse momento, acaba de entrar na sala uma retardatária. É Cristina! Chega esbaforida, tracionando numa mala de rodas tantos dos seus pertences como se fosse pôr viagem. Faz-me pensar, todavia, se não é mesmo seu trabalho a única possibilidade de deslocar no espaço, de conhecer outros seres, outros mares, outros sabores. Tem olhos belos e os cabelos curtos mas significativos. De um significado diferente dos de D. Virgínia que já é raleada no cocuruto, e que prende um bolo de cabelos postiços à guisa de um coque próprio. As poucas e ralas cãs contrastam risivelmente com “seu” coque ebâneo que repousa imobilizado por grampos descascados, desencontrados, sobrepostos e disputantes no ponto mais boreal de seu ser. Seria essa mulher assim tão evidentemente contraditória?
D. Virgínia já é ida na idade, mas seus olhos não disfarçam a vaidade, e seus trejeitos ainda avisam de que houve (ou há?) um coquetear de sedução nesta fêmea enjaneirada. Pálpebras matizadas de azul celeste em composé com o ciânico pálido das íris, já baças, encontram-se ressaltadas pelos fortes riscos negros e esticados do rímel reluzente. Creio que a intenção é transformar a marca inexorável da presbiopia em certa languidez. Suas vestes, perseguindo o mesmo afã sensual, agarram-se ao corpo acolchoado pela massa adiposa que, no entanto, sufocada, transborda pelos respiradouros do tecido acetinado. Há gomos brancos estriados que, debalde, tentam o alívio por entre esses espaços constritos. Meu Deus, que persistência dessa mulher em se fazer carne! D. Virgínia, de modo ensandecido, encarna a ilusória e vã insistência da juventude eterna.
Quanto mais olho D. Virgínia, mais vagueio pelas várias intercorrências da vida de um ser. Na verdade, creio que posso vê-la de maneiras diferentes, já que este próximo movimento dos seus olhos remetem-me a uma certa inocência, uma candura que deve ter havido na menina Virgínia. Mas no minuto seguinte, cruza tropegamente as pernas rechonchudas e artrósicas com a intenção de se fazer novamente cobiçável.
A primeira vez que vi D. Virgínia estava conduzindo seu decrépito marido pelos corredores do prédio. Passariam despercebidos se não fossem o contraste do olhar de ambos, o coque postiço e as cores vivas pintadas no rosto de D. Virgínia. Entretanto, o olhar de seu marido já era perdido; havia ficado num passado distante e se rendia à submissão. O andar de ambos revelava o trágico sucumbir do homem à deterioração cruel da velhice. Havia uma derrota a pesar nos ombros curvados de mais outro ser masculino. Seus anos de macho, incontestável, dono, provedor deram lugar aos passos curtos, às mãos trêmulas, aos lábios murchos, à palavra mussitada e à desorientação, e ao mijo solto. Hoje, uma sombra em câmera lenta daquela que outrora teria sido a bravateira imagem patética da arrogância.
D. Virgínia, exibindo mais desenvoltura que a realidade permitiria, desfila esse troféu chocho sinalizando a tinhosidade da natureza feminina que conta com o auxílio do tempo para trazer à banalidade a vaidade fálica. Há no olhar dessa dama um quê orgástico ao se apresentar à frente desse velho que teve o desvendamento de sua fragilidade meticulosamente dourado pela aliança perversa da mulher com o tempo.
Cada passo dessa Senhora é um livrar-se de peias impostas pelos valores opressores da famosa sociedade machista. Vai se soltando das amarras e imobiliza esse ancião ao amargo gosto da revanche. Repisa-lhe, no simulado do desfilar. Seus olhares sempre se cruzam e, hoje, são os de D. Virgínia que se furtam a ancorar o esquadrinhamento das pupilas incertas e inseguras; aquelas que acompanham um fala, uma postura ou um gesto em busca de aprovação, características de quem não está no mundo com certeza. E nesse momento, D. Virgínia, sem o saber, perpetua o ideal daquela eterna construção machista.
D. Virgínia se revela cruel nesse aparente cuidado para com o que restou do esposo. E sua crueldade se apresenta ainda maior porque desvela a frieza da alma feminina ao servir a sobremesa à refeição da velhice. Sobremesa essa preparada com porções de mágoa, caldos de dores, enlatados de opressão e embutidos de subjugamento cozidos no fogo brando das cáusticas décadas de convivência. Mas com certeza, vê-se também que caíram neste caldeirão as lágrimas salgadas das incapacidades e frustrações próprias de D. Virgínia que encontram neste banquete a possibilidade de se justificarem. Deste modo, esse ágape às avessas, parece fazer as vezes do elixir que haverá de remediar a praga masculina que grassou os verdes campos que teriam sido a vida de D. Virgínia. Será?
Mas os cabelos de Cristina têm outro significado que não pude decifrar, já que tinha olhos somente para sua boca que era ainda diferente das demais. A parte superior do lábio direito era um pouco mais gorda que o do lado esquerdo. Isso dava-me a impressão de que estivesse sempre pronta ao sorriso. Seu cabelo respingava sobre essa assimetria, um tanto cúmplice do que parecia um jogo velado de mostrar-se sem se deixar ver. Um algo de leviandade. Mas não uma leviandade má (se se permite concebê-la), diria uma leviandade consigo mesma, uma trapaça para com os próprios e íntimos desejos. (Mas isso não é um mal?) Entretanto, quando Cristina sorria, os lábios se tornavam simétricos e revelavam uma certa beleza e mistério nessa mulher madura. Cristina fala além da boca, porém menos que Jane. Enquanto fala, seu pescoço revira, suas mãos piruetam pelo ar, descansam desinsofridamente no colo e tornam a se espasmar. Traz algum mistério ainda não digerido, entalado na garganta. Suas vestes de tecido mole, largas e folgadas, embora caíssem-lhe leve pela pele ressecada, não diziam, contudo, toda a verdade daquele corpo pouco à vontade. Suas carnes escassas e inflexíveis se escondiam sob o debaixo das estampas floridas que exalavam um cheiro doce, bom. Um tanto arredios, outro tanto assustados, seus músculos e carnes eram completamente refratários. Parece ser dessas mulheres prontas para chorar ao ser tocada por lembranças de um tempo de ilusão, embora não desejasse se revelar como alguém que sofre. Poderia dizer que é uma mulher dissimulada, da qual quase um nada se pode emular!
Numa rua diferente da de D. Virgínia, percorreu o mesmo afã de se ver livre das relações pobres que travam os homens e as mulheres. Cristina, contudo, não usou do tempo. Com um corte agudo e quase preciso apenas disse não ao marido previsível, homem talhado ao mesmo tempo para o principado doméstico e ao bacanato dos bares, mares e ares. Cristina, bem mais nova que D. Virgínia, acompanhou a sua geração de mulheres que se emanciparam arrancando os ornatos fantásticos de Cinderela, ateando fogo ao castelo, sobretudo com seu príncipe algoz engastado lá dentro. Contudo, esse príncipe insepulto, como que ainda não aceito num céu ou num inferno, transita cruel e despótico na solidão de Cristina.
Mas o tempo, esse tempo louco que tudo rarefaz, decantou um tanto desse destemor pregado pela geração de mulheres como Cristina. E como nada se engana nas profundezas, a dissimulada amargura de Cristina boia à deriva por todo seu corpo, como que registrando a sua sensação de que fizera o que tinha de ser feito, sem, todavia, com a certeza de que o devesse. Cristina, àquela época, teria vestido a cinta da liberação feminina que hoje lhe aperta o fígado e espalha humores bílicos por todas outras relações possíveis. Ver Cristina pela boca que no sorriso gesta sempre uma amargura, me faz pensar no quanto a humanidade, às vezes, caminha longe para não alcançar a própria nudez, capacitando-se, contudo, e infelizmente, para os remorsos e pesares. À primeira vista, Cristina parece garbosa, livre, independente, mas basta mirar-lhe a boca, reparar-lhe os gestos, ouvir seu sorriso para que se aperceba a imensa constrição imposta por aquela cinta da liberação da “fé-menina” (ou da sua negação?).
Cristina é uma daquelas que avançou num caminho em que não há mais retorno. A solidão pulsa-lhe nas veias e antídotos mas não os há. O trabalho desmedido e penitencial faz as vezes de um agente paliativo contra a solidão cáustica, assim como o produzir maquinal e o ocupar-se algorítmico. Mas a recorrência da dor e do isolamento são frequentes. Há uma reima daquela revolução a impregnar-lhe os tecidos corporais, impossível de se erradicar. Existe uma luta titânica entre o que incorporou dos anos da revolução e o que há de inerente e inexoravelmente à alma do ser humano feminino. O sentimento da complacência, a pulsação telúrica que acata as sementes da vida e as reproduz, ainda se expandem insistentes naquele útero mutilado, incapaz de gerar uma semelhança. À medida que vou ouvindo de suas palavras e percebo de seus gestos, Cristina se revela mais como uma consequência da intenção daquela geração de mulheres do que uma convicção própria.
Compadeço-me com Cristina, pois o cotidiano ainda lhe reserva um número maior de anos a medrar pela vida quando a comparo a D. Virgínia. Temo que esses anos sejam de pouca graça, de pouca cor. Afinal, há pontes que se desfazem tão logo as transpassamos e mesmo que ainda existam, algo em nós, no corpo ou na alma, se transforma de modo tão profundo e cabal que nossas dimensões extrapolam os limites daquelas pontes.
Torno uma vez mais meus olhos para Cristina que ainda continua falando enquanto seus braços serpenteiam pelo ar. Sorriu agora e, novamente, seus olhos esverdeados me encantam no que são de extremamente belos. Nesse átimo, quase me esqueci de sua dor e imaginei aquela boca descompassada sendo desejada. Mas que nada! Seus olhos, de um piscar, parecem ter cruzado o pensamento em minha boca, e Cristina se retraiu. A sede de um beijo parece ter-lhe trazido a lembrança de gosto da tempestade que lhe nega a delícia de um prazer. Tornou-se magra novamente, sua espinha se recurvou e o vazio se apossou de sua expressão. Creio que minha boca crispou enquanto a de Cristina retornava à melancólica assimetria.
Senti-me cansado de ver bocas por hoje. Fiquei, contudo, a conjecturar sobre aqueles que dizem serem os olhos as janelas da alma. Minha impressão é de que se é verdade que as almas têm janelas, as bocas, definitivamente, as bocas são seus portais. Afinal, ninguém nunca disse que ao se vadiar pelos subterfúgios das pessoas, as bocas pudessem contar, sobretudo sem palavras, o que tanto se esgueira pelos meandros dos seres.





