O BRASIL QUE ODEIA O BRASIL: QUANDO A POLÍTICA VIROU MOTIVO PARA MATAR O VIZINHO

Publicado em: 30/09/2026 às 06:35

Atualizado em: 30/09/2026 às 13:41

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Ilustração Igor Vorobyov – 1972

A polarização no Brasil deixou de ser um debate. Virou medo físico. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em maio deste ano mostra que 59,6% dos brasileiros têm medo de sofrer agressão por causa de seu posicionamento político-partidário. São 99,4 milhões de pessoas. Outros 2,2%, cerca de 3,6 milhões, afirmam que já foram vítimas desse tipo de violência no último ano. Não é divergência. É barbárie.

O país que já enterrou 26 pessoas assassinadas por intolerância política só em 2026 – número maior que o de quatro eleições presidenciais somadas desde a redemocratização – agora naturaliza que discutir Lula e Bolsonaro termine com 70 golpes de faca e machado, como em Confresa (MT), ou com o cancelamento do jantar de Natal em família. Pesquisas qualitativas mostram que famílias evitam se encontrar e amizades de décadas são rompidas porque a política se tornou gatilho de ódio.

O maior prejuízo da polarização, no entanto, é invisível: a burrice voluntária. Um estudo do ConnectLab, novo centro da FGV em parceria com a Quaest, revela o dado mais assustador dessa crise: petistas e bolsonaristas confiam em seu próprio grupo político quase como confiam em suas famílias – nota 7,8 e 7,3, respectivamente, em uma escala de 0 a 10. Já a confiança no grupo oposto despenca para 0,8 entre bolsonaristas e 1,0 entre petistas. É o retrato da bolha perfeita.

Confortáveis em sua zona de pertencimento, os dois pólos só consomem o que confirma o que já pensam. O algoritmo entrega, o grupo do WhatsApp valida e a checagem morre. É por isso que a fake news prospera. A Fiocruz, ao analisar a desinformação na pandemia, comprovou que o WhatsApp foi o principal canal de difusão de notícias falsas, seguido por Instagram e Facebook, e que 24,6% das mentiras afirmavam que a Covid-19 era uma estratégia política.

O mesmo mecanismo foi transportado para a política. Estudo do Pacto pela Democracia analisou 716 mensagens desinformativas das eleições de 2022 e 2024 e descobriu que 45% eram ataques às urnas eletrônicas – justamente porque o cidadão só tem contato com a urna a cada dois anos e não tem como checar na hora.

O TSE hoje registra que a confiança nas urnas caiu de 82% em 2022 para 53% em 2025. Refém da bolha, o eleitor acredita em tudo que lê e desacredita de tudo que precisaria acreditar: Fiocruz, Instituto Butantan, IBGE, Ipea, ICMBio, Inep, universidades públicas, ONU, Unesco, OCDE. Trocamos a ciência por print sem fonte.

 Em ano eleitoral, com Datafolha apontando empate técnico de 46% a 44% no segundo turno e 74% da população se definindo em um polo, o risco não é só eleitoral. É civilizatório. Não há saída simples, mas há saída. E ela precisa ser em três tempos. Em curto prazo é preciso que cada um busque investir na higiene digital. É preciso tratar informação como tratamos alimentos. Checar rótulo. Antes de compartilhar, consultar fontes primárias. O portal do IBGE para dados de população, o Ipea para violência, o TSE para regras eleitorais, o site da Fiocruz e do Butantan para saúde. Cada compartilhamento sem checagem é um voto a favor da sua própria manipulação. Ao mesmo tempo, plataformas de redes sociais e Justiça Eleitoral precisam acelerar a retirada de conteúdo gravemente descontextualizado, como já prevê a Resolução 23.732/2024 do TSE.

O segundo passo em busca de uma possível saída a médio prazo seria investir pesado em educação midiática. O Brasil precisa incluir letramento midiático e educação para a democracia no currículo básico, como defende a Unesco. O Inep já mostra a lacuna de interpretação de texto. Não basta dar celular, é preciso ensinar a ler o celular. Projetos com professores, idosos, indígenas e quilombolas, como o que o Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia da Fiocruz já faz, precisam virar política pública nacional.

A longo prazo, o terceiro passo importante é a gente aprender a reconstruir pontes. A democracia não sobrevive com dois países dentro de um. É preciso financiamento para iniciativas que quebrem as bolhas territorialmente: festivais, ciência itinerante, universidades abertas nas periferias, debates locais sem palco partidário. É preciso ensinar sob novos prismas que divergir não é trair. A polarização não nos torna mais convictos, nos torna mais manipuláveis. E um povo manipulável é o sonho de todo autoritário e o pesadelo de qualquer democracia.

Ana Karenina Berutti

Ana Karenina Berutti é jornalista política com 30 anos de experiência em veículos de imprensa, assessorias parlamentares e partidárias e campanhas eleitorais. Tem mestrado em Letras e atua também como professora e revisora. Atualmente é repórter de Política e Economia no jornal Diário do Comércio.

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Respostas de 4

  1. Sempre admirei minha amiga Ana . Ela tem um notavél e amplo conhecimento politico e uma escrita impecavél ,ela nos informa de uma maneira muito clara e verdadeira. Parabens Ana karenina ,saudades!

  2. Parabéns Karenina! Excelente artigo! Conhece bem o assunto e escreve com propriedade. Gosto de ler, assistir suas palestras e aprender com você. Abrs.

  3. Como economista estou profundamente preocupada . O imperialismo voltou para a cena política e a Latina América para o centro da artilharia . Estamos caminhando de ré . O passado virou presente .

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