RG

Publicado em: 30/10/2026 às 17:57

Atualizado em: 30/10/2026 às 17:57

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Montagem Chat GPT

Tirei RG aos (quase) doze anos. Estava com sarampo, abatida. Saí ligeiramente prejudicada na 3×4 em preto-e-branco que me identificaria dali por diante.
Minha mãe também precisava tirar o dela, fomos juntas. Assim, nossos RGs foram numerados em sequência. Primeiro o dela, par, depois o meu, ímpar. Ela tinha quarenta e três anos e estava doente. A 3×4 escondeu direitinho.

Passei a adolescência achando a coisa mais linda, aquela numeração. Ainda acho. Veja: no documento e na vida, ela veio primeiro, eu vim depois. Ela se foi primeiro, eu vou depois. Continuo por aqui, aguardando minha vez. Meu RG é minha senha com Deus. Ele quem decide. Par ou ímpar?

Guardei comigo o RG dela. Ela não precisa mais. Eu sigo precisando do meu para tudo. Tive que renová-lo; a menina com sarampo envelheceu e ninguém mais aceitava um documento da década de 70. Na 3×4 nova e colorida e digital estou mais parecida com a minha mãe. Pudera: tirei-a com quase a mesma idade que ela tinha, quando tirou a dela.

Nas fotografias, a gente congela o tempo. Até as doenças. Mas eu sarei. Ela, não.

Silmara Franco

Silmara Franco (foto: Helena Malicka) Silmara Franco é paulistana e publicitária. Nasceu em 1967 no bairro da Mooca, e desde 2002 vive em Campinas/SP. Resistiu a transferir seu título de eleitor, só para poder rever, de vez em quando, o colégio em que aprendeu a ler e escrever. Além de cronista (https://fiodameada.wordpress.com/), é autora de livros paradidáticos: “Você precisa de quê? A diferença entre consumo e consumismo” (finalista do Prêmio Jabuti 2017) e “Navegando em mares conhecidos – como usar a internet a seu favor” (Editora Moderna).

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