São certamente muitas as coisas a serem ditas e discutidas, mas vou destacar apenas alguns aspectos gerais que me parecem principais.
O primeiro deles tem a ver com a surpreendente divisão do país e o altíssimo grau de rejeição do Governo Lula quando do início da campanha eleitoral. Digo surpreendente porque os principais indicadores socioeconômicos brasileiros estão bons – emprego formal, pobreza, expectativa de vida, inflação, analfabetismo, escolarização, mortalidade infantil, crescimento econômico, aumento da renda média etc. – sendo que alguns indicadores socioambientais importantes melhoraram recentemente, como o desmatamento da Amazônia.
Certamente há montanhas de problemas a serem superados nessas áreas – especialmente quanto a temas como moradia, saneamento, transporte, meio ambiente etc. -, mas o cenário geral é inegavelmente positivo, a ponto de o FMI ter anunciado que em 2027 o Brasil vai voltar a ocupar a posição de 8ª economia mundial.
Há, contudo, um problema central (que também é internacional): a concentração de renda e o Índice de Gini voltaram a subir em 2025 e 2026, mesmo com a queda da pobreza e o aumento da renda média.
(O Índice de Gini (ou Coeficiente de Gini) é um indicador socioeconômico criado em 1912 pelo estatístico italiano Corrado Gini. Ele serve para medir o grau de desigualdade na distribuição de renda entre os habitantes de um determinado território (país, estado, região ou município)
O fato é que os ricos nunca foram tão ricos, enquanto outros grupos estão mais precarizados.
Pessoalmente, acho que falta promover uma reforma tributária séria e profunda com maior incidência sobre o capital, especialmente o capital imobiliário e o capital financeiro, assim como um forte combate à enorme evasão fiscal. Fala-se muito da necessidade de ajustes fiscais. Eu diria que cortes dos gastos públicos sempre são necessários e possíveis, mas sem sacrifício dos programas sociais bem-sucedidos, que na verdade respondem por um pequeno percentual do PIB. Por exemplo, o Bolsa Família – que atende cerca de 19 milhões de famílias no Brasil, o que representa aproximadamente 48 a 50 milhões de pessoas – corresponde a aproximadamente a meros 1,2% a 1,25% do PIB. Enfrentar as farras orçamentárias do Legislativo e do Judiciário é tão crucial quanto o escrutínio do Executivo, e diminuir as taxas de juros de maneira significativa pode e deve ser feito.
De qualquer forma, considerando o cenário imediato positivo, sempre me impressionou a incompetência do governo Lula em transmitir essas informações para a população brasileira. Grande parte do eleitorado acabou por comprar a tal “narrativa do país à beira do abismo“, a ponto de considerar um candidato de extrema-direita.
Duas questões importantes que tem sido historicamente negligenciadas e que somente apareceram oportunisticamente na campanha eleitoral: a da corrupção e a da (in)segurança pública. Por mais que elas sejam urgentes, o fato é que não era Flávio Bolsonaro que iria enfrentá-las, envolvido até o pescoço que está em ambas.
Isso tudo sem falar nas questões sociopolíticas mais amplas: é precioso um país como o Brasil no qual, em que pese a violência da mídia e das elites, em que pese a precariedade das instituições, a despeito das taxas absurdas de feminicídio e de assassinato de ativistas socioambientais, a democracia ainda persiste.
No entanto, essa visão mais otimista das coisas não prevaleceu durante o primeiro turno dessa eleição de 2026, e para surpresa dele e de muitos o Presidente Lula teve menos votos do que Flávio Bolsonaro.


Deputado André Janones e Presidente Lula Ato em Belo Horizonte no dia 21/10/2026
As semanas entre o primeiro e o segundo turno foram extraordinárias, porque envolveram um grau único de mobilização popular em incontáveis manifestações nas ruas do país, e especialmente através do chamado “Exército Digital do Deputado Janones”. Como resultado, dessa vez para surpresa do Flavio Bolsonaro e seus apoiadores, houve uma impressionante “virada” de votos que fizeram com que o Presidente Lula ganhasse no segundo turno com uma maioria considerável de cerca de 4.400.000 votos.
Essa vitória tem sido saudada internacionalmente como sendo um alento para a defesa da democracia, um grito de resistência contra o avanço da extrema-direita. É importante destacar a importância desse feito. Não bastassem as enormes dificuldades e os grandes desafios do quadro mais amplo, nacional e internacionalmente, foram muitos e poderosos os obstáculos, de fora e de dentro do país, colocados ao processo eleitoral nos dois turnos, ameaçando a ordem democrática e a soberania do Brasil. Alguns deles:
De fora
- Tarifas abusivas do Presidente Trump
- Ameaças de invasão do Secretário Marco Rubio
- Infiltração de think tanks inclusive nas igrejas pentecostais
- Manipulação e censura das big techs, especialmente a Meta
De dentro
- Desinformação, mentiras e parcialidade da grande mídia
- Pressão do mercado financeiro
- Manipulação dos institutos de pesquisa
- Revelação seletiva de fatos comprometedores
- Manipulação e censura da campanha por ministros do STF e do TSE, especialmente André Mendonça e Kássio Nunes Marques
- Sabotagem de autoridades públicas municipais
- Violência de ativistas
Superar tudo isso foi um feito heroico do Presidente Lula e da maioria da população brasileira – 51.79% – que votou contra a extrema-direita.
A poeira nem baixou ainda, o candidato derrotado não reconheceu a derrota e fugiu dramaticamente do país. A posse mesmo somente será em 05 de janeiro de 2027, mas como o tempo não para – e especialmente dada a dimensão da polarização da sociedade – é fundamental desde já tirar lições do processo eleitoral para melhorar as condições de governança do país.
De imediato, queria destacar este trecho da fala do Presidente Lula logo depois do anúncio de sua vitória surpreendente: ele entendeu que precisa mudar sua forma de governar. E tem que fazê-lo de diversas maneiras, sendo que a fala dele menciona duas delas: uma, a necessidade de melhor comunicação com a sociedade, inclusive fazendo melhor uso das possibilidades das tecnologias contemporâneas.
Eu mesmo já postei no passado sobre quão anacrônica era a atitude do Lula recorrendo a “pronunciamentos na TV” quando hoje em dia as pessoas estão grudadas no celular. A comunicação do governo é incompetente e não transmite para a população a compreensão dos muitos aspectos positivos, sendo que a velha guarda que o assessora, inclusive nesse setor de comunicação do governo, parece ser do período jurássico…
Foi preciso que o Deputado Janones, até então um personagem meio polêmico, tomasse as rédeas desse processo de forma a revolucionar a comunicação da campanha, conseguindo resultados e números extraordinários.
A outra forma é a necessidade de envolver a participação da população no governo, ainda mais considerando a péssima qualidade do Congresso Nacional eleito. Lula é pragmático, mas abusa do “presidencialismo de coalizão“, com frequência fazendo pactos inaceitáveis com partidos, grupos e políticos que não são confiáveis. Como a própria campanha mostrou, partidos que eram nominalmente da base do governo não tiveram problema em se oporem ao Presidente. Ao invés de rifar ministérios e cargos entre essa turma traiçoeira, ele devia trazer para o governo os representantes da sociedade civil que o apoiam, inclusive fazendo com que projetos de lei sejam defendidos no Congresso pela própria sociedade.
Pessoalmente, na minha área de interesse direto, nunca “perdoei” o primeiro governo Lula por ter sacrificado o Ministério das Cidades – criado em resposta a demanda da sociedade civil – para entregá-lo a um partido de direita, que passou inclusive a se beneficiar politicamente dos recursos de programas públicos como o Minha Casa Minha Vida.
Nas palavras do Presidente reeleito:
“Essa eleição me ensinou muitas lições. Posso dizer que vamos mudar o jeito de governar esse país. Vamos fazer o povo participar mais dessas decisões. E quero dizer a vocês que a comunicação digital vai ganhar espaço muito grande. Eu inclusive já ganhei um celular […] e pode ficar certo de que daqui para frente eu vou conversar muito com o povo diretamente todo dia.”
Outra governança se faz urgente.





