UMA HISTÓRIA DE AMOR EM TRÊS ATOS

Publicado em: 30/09/2026 às 06:30

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A literatura transporta e os livros permitem ver o mundo, conhecer outros lugares, realidades, épocas. Experimentar o que nunca existiu, mas que naquelas páginas, e apenas nelas, é real, e faz sentir como se realmente fosse. Mas e quando um livro te faz acreditar que tudo ali de fato aconteceu? Quando a história ali contada embaça a linha que separa a ficção da realidade, e você tem certeza que tudo aquilo é real demais para ser inventado?

Daisy Jones & the Six, de Taylor Jenkins Reid, é um livro que cria sua própria realidade. Nele, conhecemos a banda que dá nome ao título, um grupo que alcança o estrelato na década de 70 com todo o drama, os conflitos, as drogas e a tensão que parecem intrínsecos a uma banda de rock.

O grande diferencial desse livro, curiosamente, não está nos personagens tão magnéticos, na loucura que tanto reflete os grupos musicais da época ou mesmo na magia que a vida em uma turnê musical dessa época sugere. Ainda que todos esses elementos tornem a história ainda mais irresistível, o que mais se destaca ali é a forma como ela é contada: por meio de entrevistas, realizadas com seus membros muito depois que a banda se desfaz. Somos apresentados aos fatos e aos personagens pelos pontos de vista misturados e enviesados deles mesmos. E, à medida que nos familiarizamos com Daisy, Billy, Graham, Warren, Karen, Eddie, Camila e Teddy, à medida que nos contam o que aconteceu com suas próprias vozes, você facilmente se convence de que tudo aquilo de fato aconteceu.

Assim conhecemos Billy, o roqueiro charmoso e problemático, e sua banda, the Six, que só alcança o ápice do sucesso depois que Daisy Jones, uma figura única, apaixonante e devastada nas mesmas medidas, começa a fazer parte do grupo. A banda não foge à regra: brigas, drogas, glamour, tensão e muito talento se misturam para desencadear uma dinâmica tão espetacular quanto perigosa.

Ao correr as páginas, acompanhamos essa combinação tão explosiva, que marca desde o surgimento do grupo ao nascimento de cada música. E talvez seja justo aí o ponto em que a leitura frustra: você imagina as canções, imagina seu magnetismo, mas não consegue ouvi-las. A sensação é de que a história não poderia caber somente dentro das páginas escritas. E de fato não coube: em 2023 virou uma mini série de 10 episódios, com uma trilha sonora original que deu som à banda e que se tornou uma das protagonistas da história. 

Ganhando cores e forma nas cenas da série, o livro se torna mais fascinante. É difícil e quase doloroso terminar essa história e descobrir que essa banda nunca existiu. Mas será mesmo que nunca existiu?

A verdade é que, apesar de fictícia, a banda e seu derradeiro show foram criados a partir de um grupo real, com uma história não menos extraordinária. A Daisy Jones & The Six da vida real foi Fleetwood Mac, uma banda de blues que surgiu em 1967.

O grupo misturava personalidades fortes que inspiraram os personagens da trama, como foi o caso de Christie Mcvie, que na obra literária aparece como a tecladista Karen Sirko. Mas, assim como nas páginas, são dois membros específicos que se destacam: Lindsey Buckingham e Stevie Nicks. Os dois namoravam quando começaram a fazer parte do Fleetwood Mac, porém o relacionamento não durou. As brigas intensas ganhavam uma nova camada de drama, uma vez que ecoavam em músicas como Silver Springs, composta por Stevie Nicks:

I know I could have loved you but you would not let me, was I just a fool?

I’ll follow you down ‘til the sound of my voice will haunt you, give me just a chance

You’ll never get away from the sound of the woman that loves you, was I just a fool?

I’ll follow you down ‘til the sound of my voice will haunt you, haunt you, give me just a chance

Em tradução livre:

Eu sei que eu poderia te amar, mas você não me deixaria, eu fui apenas uma tola?

Eu vou te seguir até que o som da minha voz te assombre, me dê apenas uma chance

Você nunca vai escapar do som da mulher que te ama, eu fui apenas uma tola?

Eu vou te seguir até que o som da minha voz te assombre, te assombre, me dê apenas uma chance

A situação se tornou insustentável, a ponto de Lindsey abandonar a banda em 1987. Ele só retornou uma década depois, em 1997. Quando tocou pela primeira vez junto de Stevie em dez anos, a performance de Silver Springs foi inesquecível: os dois trocaram olhares e ali ficaram, em um momento que transbordava os sentimentos dos dois, uma tensão palpável que inspirou Taylor Jenkins Reid.

Uma paixão em três atos, uma história viciante em todas as suas formas. 

Luísa Vieira França

Luísa Vieira França, capricorniana, nasceu em Belo Horizonte. Fez Engenharia Química, mas enveredou pelo Marketing Digital. Gosta de livros - cria Clubes de Leitura por onde anda -, Taylor Swift, boa comida, viajar e, principalmente, do Luiz, seu marido.

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