OS PREDADORES DO VÁCUO

Como a falência dos grandes valores morais abriu caminho para o oportunismo político e a mercantilização da fé no Brasil contemporâneo

Publicado em: 30/09/2026 às 06:45

Atualizado em: 30/09/2026 às 13:39

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O mal comum não nasce apenas de monstros conscientes,
mas de pessoas comuns que se omitem
Hannah Arendt

A célebre expressão “Deus está morto”, cunhada por Friedrich Nietzsche em A Gaia Ciência (1882), não constituía uma celebração ateísta, mas sim o diagnóstico de um colapso histórico-cultural: o fim da estrutura metafísica e moral que sustentara o Ocidente por dois milênios. O filósofo não se referia à morte de uma entidade teológica, mas à perda da predominância dos valores absolutos e da doutrina cristã como eixos orientadores da experiência humana. Com o avanço do Iluminismo e da ciência, a modernidade dispensou esse antigo alicerce. A publicação de A Origem das Espécies, de Darwin, a consolidação do heliocentrismo — que destituiu a Terra de sua condição de abrigo do antropocentrismo cósmico — e os primeiros passos da psicologia na decifração da mente esvaziaram gradativamente o espaço antes ocupado pelo divino.

Não obstante, a promessa iluminista de que a razão pura e o método científico substituiriam a religião revelou-se falha. Por sua natureza estritamente descritiva, a ciência explica os mecanismos operacionais do mundo, mas é incapaz de prescrever um sentido para a existência. Esse descompasso lançou o ser humano em um profundo vazio existencial, impondo-lhe a responsabilidade de uma liberdade sem amparos metafísicos. Não havia mais critérios absolutos para definir o consistente e o inconsistente, o plausível e o absurdo. A tarefa de atribuir significados à realidade tornou-se uma obrigação puramente individual — um peso que nem todos conseguem suportar.

Nietzsche ainda antecipou que o vácuo deixado por essa ausência seria devastador, prevendo o advento do Niilismo: a condição em que nada mais possui valor intrínseco e as antigas certezas desabam. Essa visão ficou explicitada em suas anotações de 10 de junho de 1887, no Manuscrito de Lenzerheide:

O que relato é a história dos próximos dois séculos. Descrevo o que vem,
o que não pode mais vir de outra forma: o advento do Niilismo.

Complementarmente, o filósofo pontuou que o niilismo se manifestaria sob duas formas, a depender da reação do indivíduo: o passivo e o ativo. O niilismo passivo é caracterizado pela exaustão e pelo automatismo: o indivíduo desiste de buscar objetivos maiores e anestesia-se no cotidiano por meio do trabalho, do consumo e das telas, evitando a vulnerabilidade do sofrimento. É a mediocridade satisfeita — um ciclo frustrante, pois nenhum contentamento que dispense o esforço sobrevive ao breve instante de seu alcance. Em contraposição, o niilismo ativo encara o vácuo de frente, por compreender que as crenças e convicções antigas perderam sua sustentação. Importa, pois, o que se constrói a partir de suas ruínas. Se o sentido já não emana de cima, resta ao ser humano a alternativa de forjá-lo por meio de valores próprios, escolhidos com lucidez e autonomia, como uma afirmação da vida. A sabedoria oriental já propunha essa centralidade da autorresponsabilidade, como ensinam as palavras de Buda:

Eu sou o resultado de meus próprios atos, herdeiro de meus atos; os atos são a matriz que me trouxe, os atos são o meu parentesco; os atos recaem sobre mim; qualquer ato que eu realize, bom ou mau, dele herdarei.
Eis em que deve sempre refletir todo homem e toda mulher.

Os séculos XX e XXI mostrariam a precisão da predição nietzschiana com rigor devastador: o vácuo de sentido foi preenchido por dogmatismos ideológicos que culminaram em duas guerras mundiais, campos de extermínio, armas atômicas, centenas de conflitos, genocídios, intervenções e ocupações em países soberanos — contrariando o ordenamento jurídico internacional — e toda sorte de crises institucionais profundas de sentido coletivo. Cada catástrofe parecia confirmar o aviso daquela página de 1882. Mais de 140 anos depois, o alerta nietzschiano permanece válido — talvez mais do que nunca.

Incapaz de suportar o peso de uma existência desassistida de garantias transcendentais, o ser humano moderno buscou refúgio no rebanho, diluindo sua individualidade em movimentos de massa e submetendo-se cegamente a lideranças autoritárias. Esse cenário propiciou a instrumentalização do niilismo passivo por aproveitadores sociais. De um lado, falsos líderes religiosos manipulam a angústia e a desesperança para angariar riquezas. Como mercadores da fé, propagam uma teologia utilitarista e performática — o anestésico perfeito para manter os indivíduos submissos e dependentes de tutelas doutrinárias. De outro, políticos populistas renunciam a propostas estruturais para gerenciar o ressentimento coletivo, convertendo-o em combustível eleitoral.

Esses agentes operam capturando um grande setor da coletividade fatigada e dopada pelo consumo digital hiperestimulado. Em vez de emancipar o cidadão, o populismo fabrica narrativas de ameaça constante para oferecer um pertencimento tribal fictício, esvaziando a política de sua fundamentação ética em favor de um fisiologismo pragmático. Diante de indivíduos isolados em bolhas algorítmicas, esses operadores vendem simulacros: certezas fáceis e bodes expiatórios.

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO CAOS COMO ESTRATÉGIA 

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Se, no passado, as ameaças à democracia ocupavam as ruas com tropas e tanques, cheiravam a pólvora, fechavam parlamentos à força e decretavam atos institucionais, no presente século o autoritarismo aprendeu a usar terno, gravata e algoritmos. A erosão das instituições democráticas contemporâneas tornou-se um processo menos explícito, mais cirúrgico e conduzido por dentro das engrenagens institucionais. Não se busca mais abolir as eleições, mas sim convertê-las em um jogo de cartas marcadas — uma autocracia eleitoral disfarçada de legalidade.

Para que essa artimanha funcione, o primeiro passo é insensibilizar a capacidade analítica da sociedade por meio da manipulação do niilismo social. Essa tática psicológica atua para minar progressivamente o conceito de verdade factual. Robôs (bots) emitem disparos coordenados na internet e inundam o debate público com notícias falsas, cortes manipulados e simulações por inteligência artificial, empurrando o cidadão comum para o cinismo absoluto. Afinal, a meta da desinformação não é fazer crer em uma mentira específica, mas convencer o indivíduo de que nada mais tem valor, de que todas as estruturas são hipócritas e de que todos mentem.

Desse vazio existencial e moral emerge a armadilha perfeita: a antipolítica. Apresentando-se como salvadores externos ao ordenamento tradicional, agentes populistas utilizam a desconfiança generalizada como pretexto para golpear os alicerces da República — notadamente a Justiça, a ciência e a imprensa profissional. Sob a promessa ilusória de extirpar uma corrupção que apontam como intrínseca a todas as instâncias de representação, eles comprometem o próprio diálogo democrático.

A desinformação contemporânea, além de difundir narrativas falaciosas, visa pavimentar o caminho para o autoritarismo a partir das próprias regras do jogo ao desenterrar preconceitos latentes. O caos gerado por essa volatilidade política crônica, contudo, não ocorre sem uma finalidade objetiva. Nesse sentido, a pergunta fundamental que se impõe é: a quem interessa tal cenário? Internamente, ele alimenta lideranças messiânicas sedentas por poder absoluto. Externamente, atende aos desígnios de potências imperialistas, cujas intervenções ilegais — historicamente travestidas de missões de paz ou de defesa da liberdade — buscam desestabilizar nações soberanas para enfraquecer sua governança e capturar suas riquezas estratégicas.

Para abrir caminho a essas forças, criam-se pretextos inflamados que apelam aos instintos mais primitivos do eleitorado, canalizando o temor e a insatisfação social na direção da xenofobia e da intolerância. O diferente passa a ser encarado como inimigo; o pluralismo de ideias, como fraqueza. O objetivo último dessa estratégia constitui o que, modernamente, cientistas políticos e sociólogos definem como fascismo estrutural. Esse fenômeno não nasce espontaneamente de uma figura caricata ou de um partido isolado; ele habita, de forma latente, o cerne de sociedades historicamente desiguais e violentas. Sob essa ótica, o populismo moderno não inventa o ódio, mas apenas desperta e valida politicamente o autoritarismo que já residia no tecido social, oferecendo a um eleitorado exausto a ilusão de que um líder forte é capaz de restaurar a ordem — seja a que preço for. O ditador fascista italiano Benito Mussolini sintetizou com precisão essa dinâmica por meio da seguinte reflexão:

Eu não criei o fascismo; eu apenas o tirei do inconsciente dos italianos.

Para bloquear essa marcha cínica rumo à autocracia, torna-se imprescindível compreender que o Estado de Direito é tão vital quanto a própria realização de eleições. Um regime democrático real não se resume ao predomínio absoluto da vontade da maioria, tampouco confere ao bloco vencedor a prerrogativa de aniquilar a dissidência. O verdadeiro Império da Lei exige um governo rigidamente limitado pelas normas constitucionais, garantindo que os detentores do mandato não se apropriem de forma distorcida da legislação para perseguir opositores. É esse limite institucional que resguarda as prerrogativas fundamentais de cada cidadão — incluindo e priorizando as minorias — e assegura sua dignidade no convívio coletivo.

Não menos importante, destaca-se um fundamento primordial à soberania popular, garantido por um ordenamento jurídico autolimitado: a prerrogativa de destituir, por vias pacíficas, os governantes que o corpo social desaprova. Quando as regras do jogo são blindadas contra o vazio artificial e contra as ingerências externas, a alternância de comando ocorre normalmente por meio do debate salutar e do voto qualificado, preservando o conjunto da sociedade do trauma das rupturas institucionais.

Defender o primado da lei é, por conseguinte, impedir que o sistema seja esvaziado até converter-se em uma moldura formal desprovida de substância, na qual a busca pela verdade foi deliberadamente ultrajada pela tirania do discurso intolerante. Frente a esse cenário complexo e inquietante, poderemos sempre lembrar e recorrer à sabedoria, à resistência e à resiliência explicitadas nas palavras de João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas:

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Conclui-se, portanto, que a crise contemporânea não é meramente política ou institucional, mas essencialmente metafísica. Diante do deserto de sentido atual, a população fragmenta-se entre o desinteresse passivo da anestesia digital e a capitulação aos novos tiranos da alma e do corpo. A saída proposta por Nietzsche, contudo, exige, sobretudo, audácia para superar o oportunismo vigente e rejeitar tanto os velhos dogmas quanto os proclamadores da salvação. Sem garantias externas ou tutelas ideológicas, resta à humanidade a tarefa mais urgente: assumir a responsabilidade pela própria existência, fazer suas escolhas e forjar, com lucidez, valores que afirmem os rumos da sua própria vida.

Notas:
ILUMINISMO
O Iluminismo foi um movimento intelectual e filosófico que dominou a Europa durante o século XVIII (o “Século das Luzes”). Sua premissa central era o uso da razão humana e do método científico como os caminhos principais para emancipar a humanidade da ignorância, da superstição e da tirania religiosa.

NIILISMO
Derivado do latim nihil (nada), o Niilismo é uma corrente filosófica que constata a ausência de um sentido objetivo, de valores absolutos ou de uma verdade transcendental na existência. Na obra de Friedrich Nietzsche, o niilismo não é apenas um niilismo teórico, mas um processo histórico decorrente da “morte de Deus”.

Aluísio Rassilan Braga

Aluisio Rassilan Braga nasceu em Peçanha. Arquiteto formado pela UFMG, foi presidente do IEPHA/MG. Também trabalhou na UEMG, como assessor da Reitoria e chefe de Planejamento Físico e Obras. É autor da publicação Patrimônio e Comunidade e colaborador da cartilha ABC do Patrimônio. Atuou em diversos conselhos e programas voltados ao patrimônio, turismo e qualidade do habitat. Atua como profissional autônomo.

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