ATOS HUMANOS?

Publicado em: 29/05/2026 às 05:20

Compartilhe

Esta coluna começa com um aviso: esse livro não é um livro fácil e nem um livro leve. Muito pelo contrário, trata-se de um livro confuso, pesado, triste, doloroso e, acima de tudo, real – e, por isso, tão necessário. Afinal, também é papel da literatura registrar, não deixar esquecer, para que, quem sabe assim, certas tragédias não voltem a acontecer.

Atos Humanos, da autora sul-coreana Han Kang, retrata a dura realidade da história recente da Coréia do Sul com tanta força que, não à toa, foi reconhecido pelo Prêmio Nobel de Literatura de 2024. Entretanto, por ser estruturado em capítulos narrados por vozes diferentes, e ainda como um reflexo de um contexto cultural tão diferente do que estamos acostumados, é natural que em certos momentos a obra cause confusão. 

De toda forma, o livro recompensa o leitor que persiste: a verdade é que a obra monta, peça a peça, um retrato do que aconteceu com o seu personagem central, Dongho, sem, contudo, entrar em detalhes do contexto histórico que levou a todos os acontecimentos narrados. É por isso que buscar informações sobre os fatos da história recente do país é tão importante para que o livro seja de fato apreciado como merece.

Acontece que a Coréia do Sul passou por não um, mas dois regimes ditatoriais em sua história recente. Após a Segunda Guerra Mundial, o país se afundou em uma ditadura, encerrada em 1960. Porém, o governo democrático que se seguiu não se sustentou e foi deposto no ano seguinte por um golpe que colocou Park Chung-Hee no poder. Instaurou-se então um regime totalitário e violento, que restringiu os direitos civis e reprimiu movimentos estudantis. Park Chung-Hee ficou 18 anos no poder e foi assassinado em outubro de 1979, episódio que fez eclodir manifestações civis pela democracia. Entretanto, as expectativas foram frustradas, e um novo golpe foi declarado por Chun Doo-Hwan, que assumiu o governo do país – um golpe dentro do golpe, uma ditadura seguindo a outra.

A declaração de uma nova ditadura despertou novas manifestações exigindo o fim da lei marcial e o resgate dos direitos civis, com destaque para a região de Gwangju, cenário de Atos Humanos. Diante de manifestações cada vez mais numerosas, Chun Doo-Hwan aumentou a repressão: restringiu a liberdade de imprensa, ordenou o fechamento das universidades e enviou tropas para impor a lei marcial.

As tensões crescentes resultaram, no dia 18 de maio, em uma repressão militar violenta que só inflamou mais a população civil, que organizou um grande protesto diante do prédio do Docheong. A repressão foi violenta e o exército abriu fogo contra os manifestantes, vitimando muitos civis. Os cidadãos chegaram a tomar a cidade de Gwangju e buscaram uma negociação com os militares, mas Chun Doo-Hwan proibiu qualquer tipo de negociação, bloqueando todos os acessos à cidade e ordenando a repressão do movimento, que parece ter vitimado mais de 2.000 pessoas, episódio que ficou conhecido como Massacre de Gwangju.

Chun Doo-Hwan ficou no poder por oito anos, um governo marcado pela censura e pelas restrições dos direitos civis, até que os movimentos pela redemocratização em 1987 promoveram a transição para o governo civil. Chun Doo-Hwan foi julgado e condenado pelo Massacre de Gwangju, mas com o indulto concedido pelo governo nunca chegou a responder pelos seus crimes. Atualmente, 18 de maio é lembrado no país como o dia do Massacre, que também é homenageado por um monumento erguido na cidade, terra natal de Han Kang.

 O memorial do massacre de 18 de maio em Gwangju

Esse contexto transforma toda a experiência com a obra. Começamos o livro conhecendo a voz de Dongho, um adolescente que trabalha voluntariamente ajudando famílias a reconhecerem vítimas da violência militar, enquanto ele mesmo procura pelo seu melhor amigo. Nos capítulos seguintes, cada um contado por uma voz diferente, somos apresentados a personagens que são afetados pelo regime e pelo massacre de formas diversas – seja uma vítima direta, um prisioneiro, um editor impactado pela censura, a mãe de Dongho e, finalmente, no epílogo, a própria autora. Cada relato se conecta de certa forma a Dongho, revelando a cada vez uma faceta diferente da violência daquele tempo.

Além do mosaico ao mesmo tempo delicado e devastador que se revela ao longo dos capítulos, outro fato acrescenta novas camadas à obra: não só a autora, mas também a tradutora para o português, Ji Yun Kim, nasceu em Gwangju.

Em uma entrevista, ela afirma:

“Tenho uma longa história em relação ao meu trabalho da tradução da obra. Mas, resumindo, no começo, quando a editora entrou em contato comigo, eu recusei porque eu não tinha coragem de traduzir uma obra que eu amava tanto e cujo tema era tão sensível e traumático quando eu nunca tinha traduzido uma obra literária para a língua portuguesa fora da sala de aula. Então o processo foi muito pesado, era o processo de lutar contra o meu medo de estragar a obra tão valiosa, a sensação de incapacidade, e a falta de tempo. Sonhava muito com a obra, chorava, gritava com um amigo na hora da revisão, mas ao mesmo tempo me sentia honrada com a chance de traduzir aquela obra.” 

Assim, a edição brasileira ainda conta com o benefício de uma tradução direta do coreano, em um processo que priorizou manter ao máximo a essência da obra – e também por isso as diferenças culturais acabam tornando a experiência diferente do que o leitor brasileiro está acostumado. 

Ji Yun Kim aborda esse ponto em outra entrevista:

 “Os desafios são inúmeros em qualquer tradução. Eu tentei não interpretar o romance. Ou seja, tentei ‘traduzir’, não ‘interpretar’. Porque o romance (texto literário) não existe para mandar mensagem (claro, acaba mandando mensagens como uma das consequências), mas ele existe para a gente, leitores, se cria como sujeito. E para isso, o mundo da obra não pode ser achatado e fechado por ser interpretado (na tradução) para a compreensão mais natural e fácil do conteúdo. A obra deve continuar sendo aberta na tradução para as vozes diferentes serem ouvidas, e para os leitores também poderem viver o mundo literário no presente. Quando o tradutor interpreta na tradução, o obra acaba ficando presa num único sentido que o tradutor interpreta, perdendo os seus sentidos infinitos e abertos. Mas como nós estamos tão acostumados a ‘compreender’ o conteúdo, foi difícil eu estar sempre alerta do meu próprio vício de tentar interpretar em vez de traduzir.”

Com esse contexto, e conhecendo melhor essa obra e a sua edição brasileira, deixo aqui meu convite para se aventurar pelas páginas desse livro. Entenda que você não encontrará um pingo sequer de felicidade, então respire fundo e se prepare para uma experiência que é tão dolorosa quanto é necessária: necessária para que fatos e violências como os que são retratados nunca sejam esquecidos, para que não cometamos os mesmos erros do passado. Afinal, por mais inacreditáveis que pareçam, foram todos atos humanos.

“Ainda não está claro qual o fator decisivo que influencia a moralidade da multidão. O interessante é que, independentemente do nível da moralidade dos indivíduos que formam a multidão, ocorre um tipo de onda moral no lugar. Algumas multidões não hesitam em pilhar lojas, assassinar, estuprar, enquanto outras apresentam um altruísmo e uma coragem que seriam difíceis de ser apresentados por indivíduos isolados. Não que os indivíduos que pertençam ao segundo tipo de multidão sejam necessariamente sublimes, mas a sublimidade que o ser humano possui por natureza é realizada através da força da multidão; tampouco é o caso de os indivíduos do primeiro tipo de multidão serem especialmente bárbaros, mas a barbárie original do ser humano é potencializada por meio da força da multidão.”

Luísa Vieira França

Luísa Vieira França, capricorniana, nasceu em Belo Horizonte. Fez Engenharia Química, mas enveredou pelo Marketing Digital. Gosta de livros - cria Clubes de Leitura por onde anda -, Taylor Swift, boa comida, viajar e, principalmente, do Luiz, seu marido.

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *