Para os Franciscos: Buarque, França e Guerra, que amo tanto.
FRANCISCO RIBEIRO ELLER nasceu no Rio de Janeiro, em 28 de agosto de 1993, cercado por uma história que, desde o princípio, pareceu desafiar os caminhos convencionais. Filho da inesquecível cantora Cássia Eller e do baixista Tavinho Fialho, Chico chegou ao mundo poucos dias após a morte do pai em um acidente automobilístico. Cresceu sob os cuidados de Cássia e de Maria Eugênia Vieira Martins, a quem reconhece como mãe, em uma família construída pelo afeto muito antes da sociedade brasileira estar preparada para compreender plenamente suas diferentes formas de amar.
A morte de Cássia Eller, em dezembro de 2001, quando Chico tinha apenas oito anos, marcou profundamente sua trajetória. Pouco tempo depois, o país acompanharia a disputa judicial por sua guarda, iniciada pelo avô paterno e encerrada com a permanência ao lado de Maria Eugênia. O caso foi um marco no reconhecimento das famílias homoafetivas no Brasil e passou a integrar a própria história social do país.


Mas, se a vida lhe deu perdas precoces, também lhe deu uma riqueza singular: a convivência íntima com a música. Chico cresceu entre ensaios, turnês, discos e bastidores. Aprendeu inglês ouvindo os Beatles e teve uma infância embalada por canções. Aos sete anos, subiu ao palco do Rock in Rio de 2001 para tocar percussão durante um show da mãe diante de uma multidão. Recebeu ali seu primeiro cachê, entregue pela própria Cássia.
Durante muito tempo, porém, a música não parecia um destino inevitável. Sonhou ser jogador de futebol, cogitou tornar-se professor de Geografia e levou uma juventude relativamente discreta em Santa Teresa, bairro carioca que ajudou a moldar sua sensibilidade artística. Quando decidiu seguir a carreira musical, fez uma escolha significativa: recusou-se a utilizar o sobrenome Eller como marca profissional. Preferiu construir o próprio caminho sob o nome de Chico Chico, movido pelo desejo de ser reconhecido por sua obra e não apenas pela herança que carregava.
A decisão revelou muito sobre o artista que surgiria nos anos seguintes.
Cantor, compositor, instrumentista, poeta e escritor, Chico Chico desenvolveu uma linguagem própria, difícil de enquadrar em rótulos. Sua música transita com naturalidade entre MPB, folk, rock, samba e canção brasileira contemporânea, sempre guiada por uma escrita sensível, imagética e profundamente autoral.
Entre seus trabalhos de destaque está o álbum “Onde?” realizado ao lado de Francisco Gil, parceria que chamou a atenção da crítica pela sofisticação das composições e pela força interpretativa da dupla. Em seguida, consolidou a carreira solo com canções e projetos que reafirmam sua identidade artística.


Sua produção inclui trabalhos como Estopim, Pomares, Enquanto Espera, As Costuras do Tempo, além de diversos singles e colaborações que vêm ampliando sua presença na música brasileira contemporânea. Em 2024, emocionou o público ao participar da gravação de “Eles”, em um encontro póstumo com a voz de Cássia Eller, aproximando duas gerações sem recorrer à nostalgia fácil.
Mas talvez seja no palco que Chico Chico revele sua dimensão mais singular.
Fora dele, é frequentemente descrito como tímido, reservado e econômico nas palavras. Em entrevistas, muitas vezes prefere o silêncio à autopromoção. Sobre o palco, entretanto, ocorre uma transformação. A timidez se converte em presença magnética. O artista que fala pouco passa a se comunicar intensamente por meio da voz, do corpo e da interpretação.


E é justamente aí que reside uma de suas maiores qualidades: Chico Chico não apenas canta canções; ele as reinventa. Suas interpretações de obras de outros artistas possuem uma assinatura rara, marcada pela capacidade de encontrar novas camadas emocionais em músicas já conhecidas. Sem excessos nem exibicionismo vocal, transforma repertórios alheios em experiências profundamente pessoais. É um intérprete que parece escutar cada palavra antes de devolvê-la ao público carregada de novos significados.
Seu fascínio não se explica apenas pela potência vocal ou pela qualidade das composições. Há algo espontâneo e desarmado em sua presença. O figurino despojado, a irreverência quase infantil em certos gestos e a ausência de qualquer pose de celebridade criam uma conexão imediata com plateias das mais diversas gerações.
Talvez nenhum episódio traduza melhor essa característica do que o momento em que, durante uma apresentação, aproximou-se de Maria Bethânia e lhe deu um beijo no rosto em pleno palco. O gesto inesperado arrancou sorrisos até da artista conhecida por sua postura austera e impecável. Foi um instante breve, mas revelador: Chico parece atravessar solenidades com a mesma naturalidade de quem preserva um olhar de criança sobre o mundo.
Seu público reflete essa capacidade de encontro. Jovens, adultos e pessoas que acompanharam a geração de Cássia Eller convivem nos mesmos shows, unidos por uma experiência artística que não depende de modismos. Há algo em Chico Chico que dialoga simultaneamente com a memória e com o presente.
Essa dimensão poética também se estende à literatura. Em Pequenos Sigilos, seu primeiro livro, reúne textos que ampliam sua expressão para além da música. Coerente com a visão humanista que atravessa sua trajetória, destinou integralmente os direitos autorais da obra à Ação da Cidadania, organização dedicada ao combate à fome e à miséria no Brasil.


Filho de uma das maiores intérpretes da música brasileira, Chico Chico poderia ter escolhido viver à sombra de um legado. Preferiu algo mais difícil: construir o próprio. Hoje, ocupa um espaço singular na cena cultural brasileira, não como herdeiro de uma história, mas como autor de uma obra que cresce a cada novo trabalho.
Sua trajetória reúne perdas, afeto, resistência, poesia e liberdade. E talvez seja justamente essa combinação que explique por que, ao final de cada apresentação, permanece a sensação de que não estamos apenas diante de um cantor ou compositor, mas de um artista que faz da sensibilidade uma forma rara de presença.
“Uma coisa esguia, misteriosa e valente. Frágil, sim. Frágil nunca”.
Chico Chico – Livro “Pequenos Sigilos”





