1 – DE QUE PLANETA VEIO ELZA SOARES?
Odette Castro
Para Flávio, o meu guri, a história de sua maior ídola
A história de Elza Soares é uma das mais intensas e fortes da música brasileira. Sua trajetória reúne pobreza extrema, racismo, violência doméstica, perdas familiares, perseguição política, paixão, reinvenção artística e resistência social. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Elza transformou o sofrimento em expressão artística e fez da própria voz um instrumento de denúncia e enfrentamento.
Nascida como Elza Gomes da Conceição, em 23 de junho de 1930, na favela da Moça Bonita – atual Vila Vintém – em Padre Miguel, no Rio de Janeiro, cresceu em meio à miséria. Filha de uma lavadeira e de um operário, carregava latas d’água na cabeça, enfrentava fome diariamente e começou a trabalhar ainda criança para ajudar no sustento da família.
Desde muito jovem demonstrava personalidade forte e talento para cantar. A infância, porém, foi interrompida precocemente. Aos 12 anos, foi obrigada pelo pai a se casar com Alaúrdes Antônio Soares. Aos 13, teve o primeiro filho. Antes dos 21 anos, já era mãe de vários filhos, havia perdido crianças por desnutrição e se tornado viúva. A música deixou de ser apenas sonho artístico e passou a representar possibilidade de sobrevivência.
O episódio que mudaria sua vida aconteceu em 1953, quando participou do programa de calouros de Ary Barroso, na Rádio Tupi. Elza precisava de dinheiro para comprar remédio para um filho doente, com pneumonia. Chegou ao auditório usando um vestido largo emprestado da mãe, preso ao corpo com alfinetes de fralda, porque não possuía roupa adequada.
Magra, negra e pobre, ouviu de Ary Barroso a pergunta que se tornaria histórica:
– De que planeta você veio, minha filha?
Elza respondeu:
– Do planeta fome.
A frase atravessou décadas como símbolo de sua origem e de sua luta. Muitos anos depois, ela retomaria essa memória no álbum Planeta Fome.
A roupa improvisada com alfinetes também se transformou em símbolo de sua trajetória. Já consagrada internacionalmente, Elza revisitava visualmente aquele figurino em apresentações e turnês – inclusive em shows em Paris- , transformando a imagem da pobreza em marca de identidade e força.
Durante as décadas de 1950 e 1960, começou a conquistar espaço no rádio e nos cassinos. Sua voz rouca e potente, inicialmente considerada “estranha” para os padrões da época, acabou se tornando sua principal assinatura artística. O primeiro grande sucesso nacional veio com Se Acaso Você Chegasse, música inovadora que misturava samba com forte influência do jazz.
Mas a ascensão artística não impediu que enfrentasse racismo constante. Gravadoras recusaram contratos ao descobrirem que ela era negra. Em hotéis de luxo, foi impedida de entrar por causa da cor da pele. Em apresentações, sofreu humilhações públicas. Em um episódio marcante, colocaram uma lâmina de barbear dentro de sua roupa durante um show na Rádio Tupi, provocando cortes e sangramento.
Elza também enfrentou uma misoginia violenta. Nos anos 1960, apaixonou-se pelo jogador Garrincha, então casado. O relacionamento provocou um enorme escândalo nacional. Enquanto Garrincha era protegido pela imagem de ídolo popular, Elza passou a ser tratada como “destruidora de lares”, tornando-se alvo de ameaças, insultos e ataques públicos.
O casamento dos dois foi intenso e trágico. Garrincha enfrentava alcoolismo e Elza viveu episódios de violência doméstica e humilhação. Apesar disso, dizia que ele foi o grande amor de sua vida. Em 1969, o casal sofreu um grave acidente automobilístico conduzido por Garrincha alcoolizado. No acidente, a mãe da cantora morreu.
Durante a Ditadura Militar brasileira, Elza também sofreu perseguição política. Sua casa chegou a ser metralhada. Ela e Garrincha deixaram o país e passaram um período vivendo na Itália. Mais tarde, a cantora assumiria publicamente posições firmes contra o racismo, o autoritarismo e a violência contra as mulheres.
A tragédia voltou a marcar sua vida em 1986, quando Garrinchinha, filho do casal, morreu aos nove anos em um acidente de carro. Elza entrou em profunda depressão, enfrentou dependência química, isolamento e chegou a cogitar suicídio. Naquele período, a indústria musical praticamente a abandonou.
O retorno artístico começou lentamente nos anos 1980, impulsionado por artistas mais jovens, como Caetano Veloso. Mas sua grande reinvenção aconteceria décadas depois.
A partir dos anos 2000 e principalmente em 2010, Elza Soares tornou-se referência para novas gerações. Passou a assumir de forma ainda mais explícita discursos feministas, antirracistas e políticos. Sua música começou a dialogar com rock, rap, eletrônico e experimentalismo sem abandonar as raízes do samba.
O álbum A Mulher do Fim do Mundo marcou esse renascimento artístico e se transformou em um dos discos mais importantes da música brasileira contemporânea. No trabalho, Elza canta sobre violência, envelhecimento, sexualidade, racismo e resistência feminina.


Entre as interpretações mais marcantes de sua carreira estão canções que atravessaram gerações e ganharam novo significado em sua voz, destacamos as seguintes:
- A CARNE tornou-se um dos maiores manifestos musicais contra o racismo estrutural brasileiro, eternizada pelo verso “a carne mais barata do mercado é a carne negra”.MARIA
- DA VILA MATILDE transformou-se em símbolo de denúncia contra a violência doméstica e em um dos principais hinos feministas da música brasileira recente.
- MULHER DO FIM DO MUNDO consolidou a imagem da cantora como símbolo de sobrevivência e resistência.
- LÍNGUA marcou de maneira importante sua retomada artística nos anos 1980.
- LAMA ganhou dramaticidade em sua interpretação sobre dependência emocional e sofrimento feminino.
- MALANDRO reforçou sua ligação com o samba urbano e com personagens populares brasileiros.
- EXU NAS ESCOLAS tornou-se defesa contundente da cultura negra e combate à intolerância religiosa.
- PRA FUDER chamou atenção pela abordagem direta sobre desejo, liberdade feminina e envelhecimento.
- Na interpretação de O MEU GURI, a cantora ampliou a dimensão social e dolorosa da história da mãe periférica que romantiza o filho envolvido no crime sem compreender completamente a tragédia ao redor.
- Canções como VOLTA POR CIMA também passaram a representar sua própria história de resistência.
Sua vida também chegou aos palcos através da peça ELZA, que revisitou a pobreza, os abusos, o racismo e a potência criativa da cantora. Sua trajetória passou a simbolizar a mulher negra brasileira que sobrevive à violência sem perder a força artística e política.
Politicamente, ela tornou-se voz ativa contra o racismo, o feminicídio e as desigualdades sociais. Em entrevistas, afirmava que o Brasil era um país profundamente racista e incentivava mulheres a denunciarem agressões e romperem ciclos de violência.
Morreu em 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos, no Rio de Janeiro, exatamente na mesma data da morte de Garrincha, ocorrida 39 anos antes. Até os últimos dias de vida continuou gravando, criando e se apresentando.
Sua história ultrapassa os limites da música. Elza Soares saiu do “planeta fome” para se tornar uma das maiores vozes da história do Brasil.
2 – RORY GALLAGHER – IRLANDÊS COM ALMA DE BLUES
Juarez Vieira


Conheci Rory Gallagher através do proprietário da PopRock, uma loja de discos ainda no tempo do vinil, na rua Tupis com rua São Paulo em BH, quando ele nos mostrou o Live in Europe de 1972. Sugestão que fez um bem enorme para turma da Saracura – assim denominada os amigos da mesma idade que se reuniam durante as férias na Fazenda Saracura, de meu pai. O acesso às informações era bastante escasso. Pouquíssimos rádios, livros ou revistas especializadas em Rock e Blues. Rory Gallagher não foi para as rádios, ficando assim pouco conhecido até hoje. Descrevo isto para mostrar a importância dessa informação que recebemos. Ele havia visto Rory Gallagher se apresentar com o Taste no festival da Ilha de White de 1970. Taste foi sua primeira banda, um Power Trio de formação musical enxuta e direta composto por guitarra , baixo e bateria. Esta conformação foi usada por muitos grupos importantes na época com: Cream , Jimi Hendrix Experienc e The Who. Em 1971 Rory Gallagher saiu do Taste, e iniciou sua carreira solo acompanhado de Gerry McAvoy (baixo) e Wilgar Campbell (bateria) e lança o Live in Europe , que conhecemos na PopRock. O adjetivo que eu tenho para esse disco é o mesmo que Kafunga falava na Rádio Guarani na década 70, mas hoje as coisas mudaram e não posso repeti-lo aqui. Vai, então, termo extraordinário mesmo.
Live in Europe é o seu terceiro álbum, composto de uma série de gravações ao vivo feitas durante sua turnê europeia daquele ano. Incomum para um álbum ao vivo, ele contém apenas duas músicas previamente gravadas em estúdio – Laundromat e In Your Town. As demais músicas são composições inéditas de Gallagher ou interpretações do guitarrista de canções tradicionais de blues.
A maioria dos críticos concorda que Live in Europe é um dos melhores álbuns de Gallagher, entrando para o top 10 da parada de álbuns no Reino. Ocupou a melhor posição nas paradas e ganhou seu primeiro Disco de Ouro.
O seu lançamento ocorreu já no final do boom do blues britânico, assim denominado o movimentos que começara na década de 1960 por bandas britânicas, como os Rolling Stones, Yardbirds e Cream , fascinadas por artistas autênticos do blues de Chicago, como Muddy Waters, Willie Dixon, Howlin Wolf e outros.
Rory Gallagher tinha um amplo conhecimento desse tipo de música, como pode ser visto na escolha das faixas:
1– Messin’ with the Kid – escrita por Mel London, originalmente gravada por Junior Wells
2-Laundromat, lançada no Rory Gallagher, seu primeiro disco solo.
3 – I Could’ve Had Religion” lançada neste disco sem nunca ter sido gravada em estúdio posteriormente, como geralmente acontecia com as gravações ao vivo.
4-Pistol Slapper Blues, só voz e violão, que ele toca.
5- Going to My Hometown Nesta canção Gallagher demonstra toda sua versatilidade ao trocar sua guitarra Stratocaster por um bandolim. A plateia acompanha batendo os pés e enquanto Gallagher canta do you want to go.
6- In Your Town, volta à guitarra e toda banda para um vigoroso Blues Rock. 7-Bullfrog Blues – escrita por William “Big Foot” Harris, também conhecido como Bud Johnson] e arranjo de Gallagher. Toca guitarra elétrica, com banda completa, oferecendo ao baixista Gerry McAvoy e ao baterista Wilgar Campbell oportunidade de brilharem em seus solos.
Duas músicas de blues adicionais foram incluídas no CD, lançado tempos depois: “What in the World” e “Hoodoo Man”.
Willian Rory Gallagher nasceu na Irlanda em 14/6/1995 e foi um dos mais relevantes músicos de rock e blues, participando sobretudo de Power Trios extraordinários. Em 1966, então com 18 anos, mas com prática em vários instrumentos (guitarra, mandolim, saxofone, gaita, banjo), criou a banda The Taste com dois amigos, logo mudando o nome para Taste. Nesse tempo mostravam um repertório de autoria deles, mesclado com covers de blues e rhythm blues em estilo bem próprio. Com influências do jazz, Rory tocou saxofone em várias faixas dos dois discos lançados pela Taste, chamando atenção do mainstream de Londres, até serem convidados para se apresentar no lendário Marquee Club, em Londres. Logo em seguida já faziam a abertura do lendário show de despedida do Cream, no Royal Albert Hall, juntamente com a banda Yes. Foram muito aplaudidos, inclusive por algumas lendas que estavam na platéia: Jimi Hendrix, David Crosby, músicos do Traffic e outros. A carreira seguiu em ascendente e foram chamados para se juntar ao supergrupo Blind Faith, formado por Eric Clapton, Ginger Baker e Stevie Winwood, verdadeira seleção de super craques, em sua excursão pelos EUA em 1969.
Em 1970 participaram do icônico Festival da Ilha de Wight, juntamente com Jimi Hendrix, The Who e outras superbandas. Apesar do sucesso crescente, a Taste se dissolveu e Rory seguiu com carreira solo, tornando-se uma das lendas do blues e rock.
Fazia cerca de 300 apresentações por ano e, para manter este ritmo alucinante, usava grande quantidade de remédios: “O blues faz mal à saúde. É simples assim, faz parte do jogo”, dizia ele. Sua dedicação à música era tão grande, que pode-se dizer que tocou até morrer. Num show em Rotterdam desmaiou no palco e foi diagnosticado com insuficiência hepática. Após um transplante de fígado, a princípio bem sucedido, contraiu infecção hospitalar e morreu em junho de 1995, com 47 anos.
Parece que a sua morte acabou provocando um reconhecimento à altura do seu talento, que aumenta dia a dia. Morreu muito novo, com muita estrada pela frente, mas seu espírito continua junto aos aficionados do blues e rock. O grande guitarrista atual – Joe Bonamassa lança em 19/6 pelo Spotify o álbum The Spirit Of Rory Live From Cork, linda homenagem na cidade em que nasceu, tocando ao vivo, como ele gostava.


Abaixo, transcrevemos alguns links do You Tube com com algumas apresentações.,
Rory Gallagher-Bad Penny (Rockpalast 1982)
Rory Gallagher – Shadow Play 1979 Live Video
I Am The Blues – Rory Gallagher and Friends – YouTube
The Best Of Rory Gallagher – YouTube





