Conheci Leonardo Gontijo, o Léo Mano Down em 2014, em um encontro rápido onde trocamos nossos livros. Eu fiquei com “Não Importa a Pergunta, a Resposta é o Amor” e ele levou “Rubi”. O que estava escrito em nossas histórias era a luta por um mundo diverso e inclusivo.
Doze anos depois, Léo abre seu coração para o Echo da Matta, com a mesma resposta que o trouxe até aqui : o amor.
Fundador do Instituto Mano Down, Leonardo Gontijo conta como a relação com o irmão Eduardo, o Dudu, transformou sua trajetória pessoal e profissional e deu origem a um dos mais importantes projetos de inclusão de Minas Gerais.
A história do Instituto Mano Down começa muito antes de sua formalização. Léo, mais novo de um irmão e de uma irmã mais velhos, cansado de ser o “pára raio das tretas”, sonhou com um irmão caçula para “unir forças”.
O sonho se concretizou em 1990 com o nascimento de Eduardo Gontijo.
“Dudu nasceu, com síndrome de Down e como era muito comum na época, a notícia foi muito mal comunicada a meus pais. Disseram que ele não andaria, não falaria e que morreria aos quatro anos. Foi um diagnóstico duro, profundamente despreparado”, relembra Leonardo.
Mas foi justamente naquele momento que nasceu também uma conexão transformadora.
“Naquele dia, quando fui visitá-lo, ele olhou para mim e nesse encontro de olhos, eu ouvi: acredita em mim. Ali começou uma ligação muito forte entre nós dois.
Leonardo seguiu sua formação acadêmica em duas áreas ao mesmo tempo: Direito e Engenharia. Mudou de cidade – se mudou para São Paulo – Construiu uma carreira sólida, tornou-se diretor de uma grande empresa e alcançou estabilidade financeira.
DA INQUIETAÇÃO À MUDANÇA DE VIDA
Ainda assim, algo o inquietava.
Sempre que retornava a Belo Horizonte, percebia o quanto Dudu permanecia restrito ao ambiente doméstico.
“Eu brigava com meus pais, no bom sentido, porque via meu irmão muito sozinho. Até que percebi que eu estava terceirizando a responsabilidade. Queria uma sociedade inclusiva, queria meu irmão mais autônomo, mas esperava que os outros fizessem.”
A partir dessa constatação, veio a grande virada.
“No aniversário de 18 anos do Dudu, eu disse aos meus pais: parei de falar, agora vou fazer.”
Em 2011, nasceu o embrião do que se tornaria o Instituto Mano Down.
O começo: autonomia e acolhimento
No início, o foco era simples e profundo: promover a autonomia de Dudu: aprender a atravessar a rua, andar de Uber, frequentar shows, estádios, boliche e espaços de convivência.
Paralelamente, Leonardo e o irmão passaram a acolher famílias nas maternidades e hospitais, especialmente aquelas que acabavam de receber o diagnóstico de síndrome de Down.
“A hora da notícia é muito importante. A família precisa ver um exemplo, precisa enxergar possibilidade e futuro.” Eles vão pessoalmente a hospitais conversar com os pais da criança Down recém-nascida.
Com a visibilidade das redes sociais, a história de Dudu ganhou alcance. Ele se tornou o primeiro músico com síndrome de Down do mundo, gravou CD e DVD e entrou para o Guinness Book.
O PREÇO DA ESCOLHA
Em 2015, Leonardo tomou uma das decisões mais radicais de sua vida: deixou a carreira executiva para se dedicar integralmente ao projeto.
“Eu tinha duas filhas, padrão de vida alto, estabilidade. Mas estava profundamente infeliz. Estava vivendo contra os meus valores.”
A decisão teve um custo alto.
“Vendi apartamento, vendi carros, gastei todo o meu patrimônio e dediquei 100% da minha vida ao Instituto.”
O que começou na garagem da casa da mãe transformou-se em uma organização estruturada.
PAIXÃO E GESTÃO

“A partir de uma conversa dura porém transformadora com meu amigo Camilo Romanha, hoje consultor do Instituto Mano Down e com o americano e especialista do Terceiro Setor, Dan Pallota, entendi que problemas sociais não são resolvidos apenas com boa vontade. É preciso gestão.”
A partir daí nasceu a equação que guia a instituição:
Paixão + gestão = impacto.
Hoje, o Instituto Mano Down conta com cerca de 170 colaboradores e um orçamento anual de aproximadamente R$14 milhões.
“É uma empresa. A diferença é que aqui o lucro não é financeiro. O lucro é o impacto social.”
INCLUSÃO COMO PROJETO DE FUTURO


Atualmente, o Instituto atende cerca de 1.400 famílias e projeta expansão para 2.000.Entre os principais pilares estão acolhimento, saúde, autonomia, inserção profissional, esporte, sexualidade e desenvolvimento integral.
“Nosso compromisso é trocar a palavra exclusão por oportunidade.”
Mais de 100 pessoas atendidas já estão inseridas no mercado de trabalho com carteira assinada.
O próprio Dudu foi protagonista de movimentos históricos. Ele
foi a primeira pessoa com síndrome de Down a se casar em Minas Gerais, com Vitória, também com síndrome de Down. O casamento trouxe à tona um tema polêmico como a sexualidade das pessoas com deficiência, normalmente infantilizadas pela sociedade, mas mostrando que estas pessoas tem desejos, sentimentos, autonomia e direito à informação.
“Negar isso gera sofrimento, por isso trabalhamos com rodas de conversa, psicólogos e redes de apoio”.
EMPREENDEDORISMO SOCIAL
O Instituto Mano Down não vende produtos e sim o impacto social. Esta é a grande diferença. No empreendedorismo tradicional, o risco existe, mas se der certo há lucro.
“Aqui, se der certo, o ganho não é financeiro e sim transformação social. Assumimos o risco, mas legalmente não se ganha nada com esta atitude.”
É a ousadia de empreender no terceiro setor. Mas é esta ousadia que move Leonardo Gontijo.
ACOLHIMENTO
O que é?
Acolher é receber de braços abertos, oferecer carinho, escutar e orientar, quando necessário.
O processo de acolhimento é oferecido no momento do nascimento, quando recebem a notícia ou quando procuram o Mano Down.
Para quem?
O processo de Acolhimento do Instituto Mano Down é oferecido para famílias de pessoas com síndrome de Down e outras deficiências, seja no momento do nascimento, quando recebem a notícia ou quando procuram o Instituto.
Como funciona?
O Acolhimento é feito por uma equipe multidisciplinar e proporciona a orientação e assessoria adequadas, a partir de uma escuta qualificada, empatia e respeito pelo momento.
PRODUTOS E SERVIÇOS


1) Palestra 1 – Palestra Musicada / Adversidade e Diversidade: Superando as diferenças e deficiência.
2) Apresentações Culturais que os nossos educandos estão qualificados a fazer:
Teatro / Show do Dudu do Cavaco / Coral /Desfile / Capoeira / Dança de Salão / Zumba.
3) Serviços Mano Down: equipe, formada por jovens e adultos com deficiência intelectual, que é experiente e capacitada para oferecer os serviços de: Recepcionistas / Garçons / Mestre de cerimônia / Registro
PREMIAÇÕES E RECONHECIMENTOS
2025 – Brazilian-American Chamber of Commerce
2025 – Catalyst Now
2022 – 2025 – Thedotgood
2021 – Empreendedor Social
OPÇÕES DE DOAÇÕES
Ao contribuir com o Instituto e apoiar as nossas ações e programas, você nos ajuda a promover o desenvolvimento de bebês, crianças, jovens e adultos, dando a eles oportunidades para que sejam cada vez mais independentes e incluídos de forma positiva na sociedade.
APRENDIZADO
“Aprendi com ele, o meu irmão, a dizer eu te amo, a torcer pela vitória do outro. Aprendi também a cooperação em um mundo que me treinou para competir. Esta não é uma fala de efeito. É um projeto de vida.
Para ele, a filantropia como ferramenta para o exercício da cidadania ativa e o fortalecimento de uma sociedade fundamentada na justiça social.”


No final da entrevista, fomos apresentados a todos os espaços do Instituto Mano Down pelo Patrick, conhecemos a massoterapeuta Helga e terminamos esta bonita história com um café e pão de queijo, servidos com cuidado e delicadeza no Café Mano Down.
E quando Léo diz “a gente não fala, a gente faz” o Echo da Matta viu e se orgulhou de tudo que o Instituto Mano Down fez, faz e fará.
Endereço:
Rua Urucuia, 62 – Floresta – Belo Horizonte MG – CEP: 30150-060
@institutomanodown






Uma resposta
Da “clausura” doméstica para a vida e para o viver! Felizmente Léo trocou o “falar” pelo “fazer”. Nessa seara alguém deu o primeiro passo e tantos outros, como Léo, continuaram. Tendo ingressado na prefeitura de São Bernardo pela porta da Educação Especial, tenho orgulho de ter iniciado a inclusão de crianças com SDown na rede regular de ensino. Muitos foram os desafios e também muitas as conquistas. Ainda hoje incluir na escola, na sociedade e na vida, enfim, é desafiador. Só não podemos retroceder! O caminho se faz caminhando. Parar só se for para avaliar e avançar mais e melhor. Parabéns pela matéria, Odette. Fiquei com vontade de conhecer o Instituto Mano Down.