Lugares de Peçanha: Histórias e memórias das ruas da cidade

Publicado em: 28/06/2025 às 07:53

Atualizado em: 10/07/2025 às 19:40

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Rua Saldanha Marinho ( Bairro da Bomba)

Dando continuidade à série sobre a origem dos nomes das ruas e bairros de Peçanha que guardam histórias afetivas, curiosas e reveladoras do imaginário coletivo e da vivência de seus moradores, hoje falamos sobre os bairros Bomba, Funda, um acontecimento romântico no Parque Mãe D’Água e uma visão mais ficcional da famosa Rua dos Cachorros.

Bairro da Bomba

O bairro Bomba, um dos mais tradicionais de Peçanha, guarda diferentes versões sobre a origem de seu nome, todas carregadas de memória e pertencimento.

Uma das hipóteses mais contadas é a de que a área onde hoje se localiza o bairro pertencia ao pai de João Bomba, morador conhecido na cidade. Segundo essa versão, a doação do terreno ao município teria dado origem ao nome da região, que cresceu e se desenvolveu ao longo dos anos.

Outra explicação bastante popular relaciona o nome à instalação da primeira bomba de gasolina de Peçanha, próxima ao antigo chafariz, nas proximidades da casa do senhor Juca Braga, figura muito lembrada pelos mais antigos.

Hoje, o bairro Bomba é símbolo de alegria e tradição. Famílias que emigraram em busca de melhores condições de vida, criaram ali os seus filhos exercendo variadas profissões como o carteiro Pedro Linhares, o alfaiate Tote Clementino, o militar Matuzalém Pereira de Oliveira e o comerciante Raimundo Nonato dos Santos. Seus moradores, conhecidos pelo espírito festivo, fazem do local um dos centros culturais da cidade, com instituições públicas educacionais de referência e uma Escola de Samba das mais animadas da cidade.

Autor: Raimundo Nonato Braga

Bairro Funda

A origem do nome “Funda” não é totalmente conhecida. A hipótese mais aceita é que a denominação esteja relacionada à topografia do local, situado em uma das partes mais baixas da cidade.
Outra versão, de caráter mais ancestral, sugere que “funda” venha de “cacunda”, indicando que o bairro teria sido um dos principais acessos ao primeiro vilarejo do Descoberto, caminho percorrido por antigas caravanas que subiam pelo Rio Suaçuí Grande. 

Um antigo morador do Funda era o Sr. Quim Eleto, proprietário de uma fazenda onde terminava o bairro. O Funda também era famoso pela beleza de suas moradoras, com destaque para Marina, uma linda moça de cabelos cacheados, olhos verdes e ótima jogadora de vôlei e do Bar do Rafael e seu inconfundível pé de porco.

Autor: Raimundo Nonato Braga

Mãe d’Água

A primeira vez que estive em Peçanha era julho de 1977. Moça “de família” que era, só tive autorização dos meus pais para a viagem porque estaria acompanhada da família do Antônio Augusto. Conhecendo a cidade e as histórias natais do meu namorado, chegamos à Mãe d’Água. Completávamos dois anos de namoro naquela data e, como muitos casais apaixonados, ferimos uma árvore gravando nossas iniciais dentro de um coração. Era tempo de sonhos, planos, desejos e ilusões. Retornando por lá, no ano de 2022, visitamos a reserva, e tentei, em vão, encontrar a nossa árvore testemunha.
Passados 45 anos, seguimos lado a lado, e a vida continua sendo lugar de sonhos, ilusões, realizações, fatos e acasos. A quem for por aquelas bandas, recomendo apreciar aquele cantinho da natureza. E sonhar. 

Autora: Pri Varella

Rua dos Cachorros

O hábito de uma cidade inteira não pode ser quebrado pelo silêncio. Houve uma rapariga que fez considerável progresso na vida alegre da cidade. De baixa estatura, quadris largos e busto cheio, simpática, embora feia de feições, viveu a vida excitante de Peçanha.

Não há exagero em dizer que várias gerações frequentaram a “escola de melão”. Reconheciam nela a única autoridade no assunto. introduziu profundos ensinamentos na vida dos jovens debutantes; aos quais manifestava especial atenção sem, contudo, deixar de agradar também, velhos respeitáveis.

Sua discrição era elogiável. Jamais deixou transparecer qualquer ato que comprometesse seus frequentadores.

A casa modesta e empoeirada ficava na rua dos Cachorros. Um pé de guiné plantado debaixo da janela familiarizava o ambiente. Na parede caiada da casa, um quadro retangular com inscrição bem legível conquistava um lugar de honra: “Deus esteja nesta casa”.

No quarto acanhado, um catre rangente fora do alinhamento. Na mesa tosca a luz mortiça da lamparina iluminando a tímida imagem de São Jorge dava à alcova uma aparência quase religiosa. Sobre a canastra amarela, uma bacia e um jarro esfolado, de ágate branco. Dois pregos fincados na parede, ladeando a folhinha Mariana. Apenas isto.

Enquanto dentro de casa os minutos se arrastavam lentamente, fora, uma grande ansiedade causava aos iniciantes sensações de medo e apreensões.

A casa não mais existe, mas a lembrança da pequena rua onde passavam seus frequentadores, faz ainda reviver as encantadas horas dos primeiros desejos e emoções. 

Autora: Eneida Melo

Raimundo Nonato Braga

Raimundo Nonato Braga, nasceu em Peçanha (MG), em 1953. Tem graduação e mestrado em Engenharia Mecânica pela UFMG. Atuou nas empresas ACESITA e Belgo Mineira em João Monlevade, onde se aposentou. Mora em Belo Horizonte.

Pri Varella

Pri Varella é psicóloga clínica e educacional, escritora e contadora de histórias voluntária no grupo Doce Palavra. Carioca radicada em Belo Horizonte, é apaixonada por memórias, infância, livros e escrita. Em 2024, publicou seu premiado livro infantil “Uma tia que era bruxa, uma casa que era barco, uma tartaruga que era diva”. Casada e mãe de duas mulheres maravilhosas

Eneida Vieira Melo

Eneida Vieira Melo é cronista e contista. Autora do livro “Mãe D’Agua, Pai Terra”, em que expressa com sensibilidade sua conexão com Peçanha, cidade onde nasceu. Viúva de José Melo, é mãe, avó e bisavó. Vive rodeada de carinho, memórias e afeto.

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Respostas de 2

  1. Incrível como um bairro, uma reserva e uma rua – Funda, Mãe D’Água, Cachorros – podem contar história e nos fazer alçar voos memoriais. Gostei!

  2. Olá. Eu sou neto de João Bomba e Bernardo Bomba. Sobre o bairro e demais referências, O bairro da Bomba dentre diversas versões sobre sua formação, refere-se a primeira bomba d´agua que foi instalado na cidade pelo meu bisavô Bernardo Bomba (Bernardino), ora pai de João Bomba. Bernardo Bomba era tropeiro, e aprendeu em outras cidades como instalar uma bomba d água, do qual foi chamado à realizar a instalação tanto na bomba (bairro) quando na mãe d´agua e centro. Como só ele sabia fazer (na época) a tal da bomba, o apelido pegou como Bernardo Bomba (assim como a família toda) pois sempre que precisava realizar a manutenção na bomba, era o Bernardo quem sabia fazer, e pegou … Chama lá o Bernardo Bomba. E a primeira bomba instalada foi, onde hoje é conhecido como o bairro da Bomba. A referência no texto sobre a doação de imóveis, de fato ocorreu, mas não na Bomba, mas sim na Mãe d´agua. Inúmeros imóveis, inclusive o parque, ainda estão em nome de Filogônia Barbosa, ora, esposa de Bernardo Bomba, do qual doou diversos imóveis ou não quis reivindicar posse dos terrenos, terras e imóveis. As certidões dos imóveis ainda constam o nome de minha bisavó Filogônia. Minha família (os Bomba) eram bastante conhecidos, restando ainda alguns na cidade como Célio Bomba, Dr. Eliseu, Geralda Bomba, todos filhos de João Bomba, filho de Bernardo Bomba.

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