1 – A CRIAÇÃO COLETIVA DO THE DARK SIDE OF THE MOON
Juarez Vieira
O álbum The Dark Side of the Moon, lançado em 1973 pela banda Pink Floyd, é considerado uma das obras mais importantes da história do rock. O disco se destaca por seu caráter conceitual, abordando temas universais como o tempo, a morte, o dinheiro e a saúde mental. Além disso, ele representa um marco na evolução do rock progressivo e da música experimental.
O álbum surgiu em um momento de transformação da banda, que buscava um som mais organizado e profundo. A saída de Syd Barrett influenciou diretamente o conteúdo do disco, principalmente nas reflexões sobre loucura e fragilidade humana.
Antes de ser gravado, o projeto foi apresentado ao vivo em 1972, permitindo que as músicas fossem testadas com o público.
A criação foi coletiva, com destaque para Roger Waters nas letras e na elaboração do conceito. Os outros integrantes também tiveram papéis importantes:
David Gilmour → guitarras e solos
Richard Wright → teclados e harmonias
Nick Mason → bateria
As músicas surgiram de improvisações que foram sendo estruturadas ao longo do
O álbum foi gravado nos Abbey Road Studios, com produção de Alan Parsons.
Entre as inovações, destacam-se:
Uso de efeitos sonoros (relógios, batimentos cardíacos)
Entrevistas com pessoas comuns,
Uso de sintetizadores,
Conexão contínua entre as músicas.
As faixas formam uma narrativa única:
Speak to Me / Breathe → introdução do tema da vida
Time → reflexão sobre o tempo
Money → crítica ao consumismo (com influência do blues)
The Great Gig in the Sky → abordagem emocional da morte, com vocal de Clare Torry
Us and Them → conflitos sociais
Brain Damage / Eclipse → conclusão do álbum e síntese dos temas.
Há uma convergência de várias influências:
Blues → presente em “Money” e nos solos
Psicodelia → efeitos e experimentação sonora
Rock progressivo → estrutura conceitual
The Dark Side of the Moon é uma obra que vai além da música, abordando questões profundas da existência humana. Seu sucesso se deve à combinação de inovação, qualidade musical e um conceito bem estruturado. O álbum permanece atual e continua influenciando artistas até hoje, sendo considerado um dos maiores marcos da história do rock.
É o álbum mais emblemático do rock progressivo mantém uma média de 15 milhões de ouvintes mensais na faixa etária da Geração Z. Atualmente, ele se tornou a trilha sonora oficial para sessões de relaxamento e estudo, acumulando mais de 4 bilhões de streams totais no Spotify. A estética visual do prisma continua sendo um dos itens de merchandising mais vendidos para este público.
https://youtu.be/FEacDWPWfJU?si=jX-isySz9OEGOx6r – link do disco
2 – DIVINO CARTOLA
Odette Castro

Criei o projeto Uma Flor Por Uma Dor em um momento de dor, para que as flores de crochê “plantadas” nas árvores transmitissem resistência, inclusão e amor. Ao tecer uma dessas flores, fiz uma conexão com as rosas de Cartola, que não falam, mas exalam o perfume dos sonhos, da poesia e também da resistência.
Assim, entre flores e rosas, o Echo da Matta canta Angenor de Oliveira, nascido no Rio de Janeiro, em 1908. Viveu cercado de música desde a adolescência. Muito mais que morada, o morro era ponto de encontro de sambistas, e seu talento o levou às primeiras composições, feitas de improviso, sem formação musical. Escrevia sobre o cotidiano, as belezas e as dores da vida, em uma linguagem simples e profundamente sensível.
Na impossibilidade de viver da música, trabalhou como pedreiro — foi daí que surgiu o apelido Cartola, por usar um chapéu para se proteger do sol e do cimento.
Em 1920, compôs “Que Infeliz Sorte”, sua primeira música de destaque. A canção fala da sorte — ou da falta dela — de ter um coração forte, que resiste à ingratidão da amada Dolores.
A partir daí, passou a compor sambas-enredo e foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira, uma das mais importantes escolas de samba do Brasil.
“Chega de Demanda” foi o primeiro samba-enredo composto para a Mangueira. Forte, verdadeiro chamado à paz, pedia o fim dos conflitos e rivalidades comuns entre blocos e escolas. Tornou-se também um marco na ligação entre o samba-enredo, a identidade das escolas e os desfiles de carnaval.
Muitas de suas músicas foram gravadas por artistas mais famosos, como Francisco Alves, como “Tudo acabado e o baile encerrado”. Era um fato comum na época. Compositores do morro criavam canções para artistas consagrados — geralmente brancos — gravarem por uma quantia irrisória.
Mesmo com talento inquestionável, Cartola foi se tornando invisível para o mercado musical, que se abria a novos estilos e intérpretes.
Somaram-se a isso problemas financeiros e pessoais, como a morte de sua companheira, Dona Deolinda. Durante anos, um dos maiores compositores do país viveu à margem, circulando pelas ruas e fazendo pequenos serviços para sobreviver.
Essa invisibilidade evidentemente não decorreu de falta de talento, mas era reflexo de um sistema que apagava — e ainda apaga — artistas negros, pobres e periféricos.
No fim dos anos 1950, Cartola foi reencontrado por Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que o reconheceu lavando carros em Ipanema. A partir desse encontro, voltou a frequentar rodas de samba, reconectou-se com músicos e intelectuais e reassumiu, aos poucos, seu lugar na música.
Ainda fragilizado financeira e emocionalmente, conheceu Dona Zica, mulher que não apenas reconheceu o artista, mas acolheu o homem por inteiro. Figura forte na comunidade, era cozinheira, sambista e muito respeitada na Mangueira. Sua parceria com Cartola foi fundamental para devolver visibilidade ao compositor, fortalecer o samba de raiz e criar pontes entre o morro e a cidade.
Juntos, no início dos anos 1960, criaram o Zicartola, restaurante que se tornou um importante espaço cultural para o samba. Mais voltado à cultura do que ao lucro, o empreendimento acabou não se sustentando por muito tempo.
Cartola morreu em 30 de novembro de 1980, mas vivíssimo no samba, no carnaval, na Mangueira e nas rosas com perfume de todas
Músicas (dentre outras)
Uma de suas canções mais emblemáticas é “O Mundo É um Moinho”, composta em 1970, na qual fala sobre escolhas, consequências e proteção. A história mais conhecida diz que foi escrita para uma filha que estaria “se perdendo na vida”, mas não há comprovação histórica dessa versão.
Em 1987, um quase xará de codinome Cazuza trouxe a música para a nova geração, em uma interpretação crua e intensa:
“Ouça-me bem, amor, preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho…”
Gal Costa, em 1970, apresentou uma versão marcante de “Acontece”, com interpretação pungente e, ao mesmo tempo, delicada. A canção trata do fim de um amor esvaziado, o desamor que fere mais do que a própria paixão:
“Acontece que já não sei mais amar…”
Em 2022, Cartola foi homenageado pela Mangueira, ao lado de Jamelão e Mestre Delegado, no samba-enredo “Angenor, José e Laurindo”, que celebra o legado desses grandes nomes do samba.
Bibliografia
Existem muitos livros sobre a vida e música de Cartola.
–Divino Cartola – Uma Vida em Verde e Rosa (Denilson Monteiro): Uma biografia completa e envolvente.
– Cartola, os Tempos Idos (Marília Trindade Barboza e Arthur de Oliveira Filho): Uma das biografias mais fundamentais, baseada em depoimentos diretos do sambista.
– Cartola: Uma análise das 10 músicas mais tocadas (Vários Autores): Focado na análise da obra e biografia.
– O melhor de Cartola (Roberto M. Moura): Livro que mistura biografia com a partitura e letra de suas principais obras.
– Cartola – Crianças Famosas (Edinha Diniz): Uma biografia ilustrada voltada para o público infanto-juvenil.
As Rosas Não Falam
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas
Que bobagem as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas
Que bobagem as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim
3 – A ARTE E A TECHNO MUSIC
Vitor e Francisco França

Há uma época em que se inicia o processo em que os papéis se invertem paulatinamente. Até então a música eletrônica não me interessava e conhecia pouca coisa dela. Mas, um dia, Vitor meu filho começou a falar sobre as suas nuances, com exemplos e demonstrações e fui gostando, incluindo várias entre as preferidas. Razões para gostar foram muitas, começando pela troca de afetos. Abaixo, um pequeno resumo das conversas que tivemos sobre o assunto.
Mind Against – duo formado pelos irmãos italianos Alessandro e Federico Fognini, que moram em Berlim e produzem excelente combinação de House e Techno Music. Bom exemplo da produção deles é a música Days Gone: não é uma melodia, mas somente sons, que se sucedem e se intercalam conforme outra lógica. Produz sensações, como a música também faz, mas por outros caminhos. Como a arte concreta, que subverte o figurativo, utilizando somente os elementos básicos das linguagens, ou seja: planos e cores. A arte concreta se constituía de uma linguagem autônoma, que não necessitava manter relação com os temas figurativistas. Ossos e nervos. A arte se comunica, as obras de qualidade remetem a outras também de qualidade sem que haja uma conexão explícita ou sequer aparente. Talvez seja esse o critério da beleza, que nos conecta sem que haja um motivo racional. Nas pinturas de Malevich e nos sons de Mind Against não há figura, não há melodia.

Malevich – Branco no branco
Mind Against – Days Gone – https://youtu.be/tH7Sn7YJ8X8?si=juvHXGVH7HL8XVem
Morelly e Mukio – outra parceria musical muito conhecida, desenvolvem trabalho notável principalmente na Minimal e Techo House. É um estilo extremamente conceitual. A música se desenvolve através da relação do som com ele mesmo, sem que entre um som e outro haja melodia. O som é utilizado para formar a música como se fosse um jogo, cuja disposição no decorrer dela produz o resultado. Não é a melodia que interessa, mas a correlação dos sons dentro da música. Como na arte construtivista, em que os elementos do quadro se relacionam de forma geométrica, abstraindo-se de qualquer relação figurativa. E as pinturas de Lygia Clark, daqui de BH que, não por acaso, se intitulava “não artista.”

Lygia Clark – Bichos
Mukio – Arritmia – https://www.youtube.com/watch?v=Ca6pjR2TLns
Max Cooper – baseado em Londres, tem prestígio mundial pelo som original e shows audiovisuais imersivos e de alta técnica. Estrutura o que seria chamada canção baseando-se em sintaxe apenas sonora: música sem melodia. A sintaxe do som sem um discurso, sem uma história para contar. O avesso da linguagem. Trabalha com o silêncio, sem reduzi-lo mediante a interferência dos sons. O silêncio mantém-se na música, paralelamente aos sons. Sem discurso, o ruído tem a única função de ser ele próprio, não atrelado a um enredo. Também o silêncio se manifesta como elemento ativo e não apenas intervalo entre os ruídos, convivendo em funções compartimentadas. Neste caso, poderíamos fazer conexão com a poesia concreta, onde cada palavra ou letra funciona em sua totalidade, muito mais do que participar da narração de uma história.

Augusto de Campos – Pararaios Comics
Max Cooper – Repetition – https://youtu.be/nO9aot9RgQc?si=YmOjFWgBRMyQoVMe
Recondite – músico alemão, viveu na zona rural da Baviera, sofrendo influências do ambiente e do povo de lá. Compõe principalmente nos estilos Ambient, Deep House e Techno-Acid , usando muitas gravações de campo e sintetizadores.
A música Nifty tem um dos sons mais intrigantes, que se inicia aos poucos no meio da música e depois desaparece com a mesma suavidade. Abandona a melodia para provocar apenas experiências sensoriais naquele que, de ouvinte, torna-se partícipe.
Uma renúncia à criação melodiosa em si, devido a intenção de explorar um território desconhecido para desvendá-lo conjuntamente com o ouvinte. Uma experiência compartilhada entre o autor e o ouvinte. Muito instigante.

Mondrian – Composição com Vermelho, Azul e Amarelo.
Recondite – Nifty – https://youtu.be/TnHO2cEfAfM?si=vQNd43re5SBZnb_G
David August, 36 anos, é mais um representante da Alemanha no universo Techno. Estudou piano clássico desde os 5 anos. Produz obras grandes, a sequência de músicas, a forma como uma dá lugar à outra, a seleção que o artista faz, é uma experiência muito mais completa que ouvir músicas isoladas. É como o próprio David August pensa, à exemplo do seu último álbum, que possui músicas de 1 hora e de 10 segundos. Ele mesmo sugere: o álbum foi feito para ser escutado continuamente, como uma sinfonia.
Na icônica Epikur várias coisas convivem ao mesmo tempo. Os acordes se desenvolvem, seguem em novas melodias, voltam para retornar novamente em notas mais agudas. Vale a pena ver uma das suas poucas apresentações no You Tube, em Berlin, templo do techno mundial. As apresentações na música eletrônica são muito interessantes por uma questão, dentre outras: a música não passa apenas uma melodia através do som, mas sim uma experiência.

David August – capa de Epikur
Epikur – Video Oficial – https://youtu.be/Zvi4JYmRXzI?si=0akGHOe0sNXqrbgd
A Techno Music, como os demais estilos musicais, se manifestou em vários lugares a partir da ampliação dos recursos oferecidos com o desenvolvimento da tecnologia sonora. A Alemanha é um celeiro de talentos e outra das suas origens remonta à cidade de Detroit, com influências da música afro-americana: jazz, funk, electro e outros. Por outro lado, foi baseada também nos temas futuristas, como o livro A Terceira Onda de Alvin Toffler. Um dos pioneiros da Techo usa, inclusive, a expressão “rebeldes techo” do seu livro, para descrever o estilo que ajudava a criar.
Os produtores usavam (e ainda usam, é claro) criativamente a tecnologia marcando a estética da música instrumental, repetitiva, incorporada por DJ’s em set lists, parecendo que a produção das canções foi transferida para a máquina ao invés do corpo. Vale a pena ouvir, sem idéia pré concebida.
Enjoy it.






Uma resposta
Hahaha lembro local, dia e hora quando ganhei, do meu irmão Artur, esse LP do Pink Floyd. Foi presente de 17º ou 18º aniversário, creio. Faz é tempo! Não conhecia mas amei profundamente e ouvia sem parar. Boas recordações!