PAISAGENS ANTIGAS – RUAS DE PEÇANHA

Publicado em: 30/04/2026 às 10:06

Atualizado em: 30/04/2026 às 18:31

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1 –  PAISAGENS ANTIGAS
Francisco França

Meus olhos catavam imagens pela rua e guardavam num cantinho para usar depois, o que nunca aconteceu.

Os episódios passam em forma de lembranças, enfileirados na ordem cronológica inversa de quando despontaram. No início, os mais novos, reproduzidos quase fielmente. Quanto mais velhos mais descorados mais longe na fila. Por alguns momentos fantasiamos estar nas mesmas paisagens deles, outrora cheias de luz e cores e, agora, carecendo um retrofit para serem notadas.

A memória busca vivências enclausuradas no tempo. Mas o tempo não é ajustável e não mudará seu movimento em direção ao futuro. A memória estática é impotente para alterar o fluxo contínuo. Se, porventura, no embate que presenciamos todos os dias, a memória vencesse o tempo, as novidades teriam dificuldades para se acomodar. Logo faltaria espaço devido ao acúmulo de fatos. Passamos a vida construindo lembranças para suprir a memória, mas elas não correspondem, quando solicitamos ajuda. Exigimos delas mais do que poderiam oferecer. 

Ao contrário do azul que dá cor aos beirais das janelas, não sabemos como o azul do céu é formado, talvez seja uma espécie de  miragem. As lembranças são como o azul do céu, não conseguem ir além de simples miragens que supomos efetivas. Insistimos em encontrar o antigo casarão de paredes brancas e soldados de ferro prendendo as venezianas, mas no lugar existe o  prédio da agência de banco no estilo brutalista. O que presenciamos são cacos de outros tempos espalhados no chão de cimento.                                                   

Lembranças repetem como podem os eventos que imaginávamos permanentes enquanto aconteciam.  Lembramos deles para nos manter vivos, mais do que um ato de satisfação ou de fidelidade aos fatos do passado. Para não sucumbir à torrente do cotidiano, presos no efêmero. Deveríamos  gravá-las na pele, como tatuagem.

Se as palavras transmitem ideias, as lembranças procuram exibir a alegria dos momentos que desejamos de  volta. Mas, às vezes, os sonhos se equivocam e a realidade desponta sem avisar. É o risco que corremos no retorno às épocas.

Existe a realidade, meninos, e nada nela se pode modificar. Mas verdade, isto é, opiniões sobre o real, expressa em palavras, são incontáveis, e cada uma é ao mesmo tempo certa e inexata.
(Lenda chinesa).

Ao pensarmos na palavra árvore, por exemplo, as forças do nosso corpo e da nossa alma entram em ação e conduzem a dezenas de sensações para as quais servimos de veículo. O pensamento sobre a árvore traz a fruta madura difícil, o alçapão de cana-do-reino para pegar o canarinho cabeça de fogo, as cordas do balanço amarradas no galho mais grosso. A mãe de avental mandando descer para tomar banho.

As lembranças se esforçam para repetir as paisagens antigas, onde a vida acontecia e queríamos morar para sempre. Agora, nos  mesmos cenários, verificamos uma correspondência entre a ideia presente e aquilo que foi real. No fundo, tentamos recuperar alguns dos momentos da viagem que fazemos rumo à simplicidade do início mas, também, rumo à  solidão. Melancólicos, constatamos que nas paisagens nada mais resta, além de nós. Estamos sozinhos, percorrendo caminho incerto. Transformando o mundo conforme nossa individualidade.

Como sempre fazíamos, do velho sofá da varanda observamos o gramado e as árvores. Alguns fios da cerca de arame estão rompidos, mesmo assim a bouganvillea  floresce, sem alguém para cuidá-la. Teia de aranha entre dois eucaliptos parece renda quando o sol bate. O atalho de terra batida, por onde as vacas caminham para o curral, sulca a grama verde. Do horizonte chega paz serena, sentimento de plenitude. Tudo como deveria ser, exceto um detalhe: as pessoas não estão mais aqui. 

Embora a tarde já tenha chegado, ainda fantasiamos estar no começo das coisas. Muitos anos sumiram, passaram sem que percebêssemos. Mesmo assim, queremos brincar no quintal, as irmãs aguardando para o guisadinho na casa de madeira coberta por esteira de taquara. Juntos aos nossos pais no aniversário da avó, toda família cantando parabéns, ela assentada em frente a mesa do bolo coberto de glacê e se levantando com ajuda para soprar as velas. Desejamos  voltar à  praia, para ver os meninos e meninas enchendo os baldes de areia. Comemorar as vitórias do colégio no restaurante de sempre, festejando junto aos garçons.

O menino e o mundo
(Emílio Moura)

A água canta nas pedras
Um arco íris inocente brinca num raio de sol
A vida sorri à vida
A realidade está sonhando.


Perguntamos a nós mesmos se  faríamos diferente caso a volta no tempo fosse real e não apenas nas recordações. Talvez prestássemos mais atenção às dificuldades dos outros, prescindindo da necessidade de vencer sempre. Com mais paciência, menos ultraprocessados, tentaríamos não nos preocupar tanto  antes da hora. Festejaríamos mais vezes  os parentes e os amigos. 

Ah, e os abraços seriam bem mais apertados!

2 – RUAS DE PEÇANHA – RUA JOSÉ CORREIA BRAGA
Wania Braga de Oliveira

A rua Prof. José Correia Braga, hoje, infelizmente muito descaracterizada.

A rua Prof. José Correia Braga vai da Praça do antigo Fórum até ao Buracão, como era denominada a área onde foi construído o Fórum Novo. Ou seja, entre os locais da Justiça, mais uma das razões que tornaram-na tão importante.

Com apenas uma quadra acolheu ao longo do tempo  grande número de pessoas que exerceram enorme influência na cidade:

José e Nem Correia Braga, Juarez e Julieta Vieira,  ⁠Belizario e Aglaê Cunha, ⁠Nonô e Maria Eleto Braga, Manoel e Dulce Oliveira Braga, Raul e Leda da  Cunha Pereira, ⁠Julinho e  Carmen Marques,  ⁠Antônio e Alzira Soares, Ivan e Eni Polidoro, Jovino Froes, ⁠Toninho e Isaura Braga, ⁠João e Leda Cardoso, ⁠Jovino Frois, ⁠João do Dico e D. Alda, Sadi e Terezinha Braga, e last but not least a família do seu Alfredo Alexandre. 

As crianças e adolescentes jogavam futebol no campinho denominado Largo de Baixo, onde está situado a Pracinha do Fórum, e seus times disputavam partidas acirradas com o time do Largo de Cima, localizado em frente à Igreja, que quase sempre terminavam em briga. 

Para falar do ambiente desta rua icônica convidamos a Wania Braga – Waninha,  filha do Manoel Augusto de Oliveira e da Zulma Freitas Braga de Oliveira, que nos conta um pouquinho das lembranças da pequena rua,  grande de casos e afetos.

“Nossa infância e adolescência são fases marcantes em nossas vidas! Nossa cidade, Peçanha, é o amor e referência para nossos corações eternamente. Imagina, então, a rua onde vivemos, vivenciamos grandes emoções, convivemos com amigas, vizinhas especiais, com tanto carinho e cumplicidade.

Reuníamos na porta ou no “alpendre” de alguma casa da nossa rua. Tinha o alpendre da casa do Belisário e Aglae Cunha, que tinham  a Solange, Marina e Raquel; Do Sr. Nonô Braga  e Dona Maria, que tinham Enilda, Romilda, Arilda e Railda; Na casa da Dona  Nem, tinha  a Mercezinha; e tinha também as minhas tias queridas, Graça e Nancy.

Quando nos encontrávamos , era só alegria, bons papos e aprendizados. E como era legal quando sabíamos de alguma serenata dos meninos queridos ou alguns namorados que tínhamos, mas escondido…Sabe o que fazíamos? Era combinado irmos dormir na casa de uma das amigas.

Era uma emoção tamanha quando escutávamos o som da primeira música vindo da nossa rua, com o maior respeito e silêncio da turminha dos meninos. Era uma rua de muitas alegrias. Turma sempre junta, nas portas das casas, na pracinha de frente, onde íamos sentar com uma ou duas amigas para contar um segredinho de nossas brincadeiras de “aborrecentes”.

A famosa rua da minha amada vó, D. Jandira, era sempre de muita alegria, de grandes amizades e de ótimos e felizes acontecimentos. Guardo no meu coração cada pedra tirada do calçamento para serem colocados os paralelepípedos, quando a rua foi “modernizada”.

Nova rua nasceu, amigas e pessoas amadas continuam guardadas em cada pedacinho da nova rua em nossa linda cidade de Peçanha.”

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

Wania Braga de Oliveira

Wania Braga de Oliveira mudou-se para Belo Horizonte com 23 anos para estudar e trabalhar. Formada em Direito, tem longa e profícua carreira: Mundo Colegial, Grupo Barbosa Mello, Aços Especiais Itabira, Ministério da Fazenda, Secretarias de Estado de Planejamento, Turismo e finalmente da Fazenda, onde se aposentou. Muito orgulho de cuidar da minha mãezinha com 95 anos.

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Respostas de 5

  1. Wania e Chico França, parabéns! Obrigada por nos levar a esse passeio gostoso pelas ruas da nossa querida Peçanha.

  2. Há muito nos faltava em nossa cidade querida Peçanha, um elo de comunicação tão fértil. Agora, com tempo e o bom registro, a justa homenagem a estes ilustres Peçanhenses: Waninha e Chico França.

  3. Quem dera si eu tivesse fôlego bastante, para – Das Bancadas, num grito só, saudar esta cidade, quem dera!..

  4. Josélia Braga BaldimJardim (neta de Jandira e Belizário, filha de Zenir) disse:

    Me senti passeando em Peçanha em minha adolescência e juventude💫
    Amei!!!
    Gratidão por ter compartilhado Waninha…

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