EU, MEU OUTRO EU E A CONVIVÊNCIA DELES.

Publicado em: 31/08/2026 às 12:40

Atualizado em: 31/08/2026 às 14:31

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Michelangelo (1475-1564) - A Criação de Adão (detalhe)

Eu é um outro.  (Arthur Rimbaud)

Na frase “Eu é um outro.” (“Je est un autre.”), incluída na Carta do Vidente, 1871, Arthur Rimbaud (1854-1891) ignora a gramática – eu, na primeira pessoa, conjugado com o verbo na terceira pessoa – e expõe a condição do indivíduo de não controlar a sua mente, rompendo com a ideia de que somos um sujeito fixo, consciente e dono de si. Cada ser humano seria formado por dualidade profunda e infindável e frequentemente o eu se cala para que o outro eu fale. Ao dizer que em nossa mente há  forças desconhecidas e autônomas, aos 17 anos, ele antecipou intuitivamente descobertas que a Psicanálise só alcançou muito depois. 

Quando nasci, nascemos dois, eu e meu outro eu, acomodados no mesmo corpo, como a marmelada e goiabada 2 em 1 na lata da Cica. O primeiro, que todos vêem, está alojado na pele que habito (obrigado, Almodóvar!). O irmão gêmeo, seu duplo, mora no inconsciente, atua em conjunto com as forças que transitam por lá e que não identificamos claramente. Embora não apareça, ele influencia os sentimentos, desejos, atitudes, projetos. Nos acompanha durante a vida, em um pax-de-deux constante, perene, interminável. Nossos encontros se realizam na parte da mente onde a memória guarda as emoções e a razão não consegue disciplinar. Ali os pensamentos flutuam sem censura, se comunicam através de símbolos, atos falhos, esquecimentos e outras manifestações que a princípio não compreendemos. Recepcionam sentimentos profundos, como aqueles revelados nos sonhos. A conversa é franca e às vezes difícil, quando temos de abandonar a noção de que decidimos as nossas escolhas. 

Acreditamos ter o controle da  mente, mas o consciente, onde transitamos, é somente a ponta do iceberg. O cérebro decide e emite os impulsos de forma automática, a partir do inconsciente, em fração de segundos antes de percebermos. A ideia de que controlamos as nossas ações é apenas uma ilusão que nos conforta. O próprio cérebro age para organizar o caos e diminuir a angústia da incerteza, mas a maioria das nossas reações e escolhas acontece antes da percepção pelo consciente. Para manter a estabilidade emocional a mente forja, através da imaginação, a ideia de que podemos organizar eventos absolutamente aleatórios. Ficamos frente à nossa sky line, presenciando o desfile  dos fatos e das reações que eles provocam em nós. Somos espectadores da passagem dos acontecimentos que estamos participando.

Quando há concordância entre as duas partes suas vozes soam quase como um dueto, em perfeita identidade. Mas tornam ruídos incômodos se há discordância. Dentro do nosso mundo o outro eu é o  único que  conversamos  livremente porque é pessoa que nos conhece sem restrições, talvez mais do que nós mesmos.

Desse modo, ele funciona como agente de orientação para quaisquer assuntos, até os mais íntimos. E as conversas, mesmo as difíceis,  proporcionam aperfeiçoamento da personalidade, tornando-nos seres humanos melhores, se conseguirmos  ouvi-lo com atenção. Ele fala inclusive sobre os assuntos que se referem às coisas que preferimos desconhecer. Enxergamos com bastante clareza os atos censuráveis dos outros mas não os reconhecemos em nós, mesmo se forem iguais. Se ficamos irados com um amigo que chama nossa atenção para aquilo que não queremos perceber, nos defendemos através da raiva que lhe dirigimos até o desconforto passar. Com o irmão gêmeo interior isto não é possível. É um juiz às vezes impiedoso, mas o que podemos fazer, se é parte de nós? Nunca deixa de censurar por termos praticado um ato impulsivo que, tivéssemos  refletido, jamais faríamos. Com ele só podemos argumentar e, neste processo, tirar lições para melhorar a nossa percepção da realidade.

As emoções positivas e negativas têm suas funções, conforme as necessidades da mente. Por isso elas foram desenvolvidas. No entanto, muitas vezes não atuam adequadamente. Se não percebermos claramente as causas do sofrimento, por exemplo, as emoções são direcionadas aos motivos errados. E se não alcançarmos os resultados  desejados culpamos outros fatores que não atuam na questão e, portanto, não influem nela. São  necessárias coragem e determinação para encarar os reais motivos e conhecê-los, porque muitas vezes eles são criados em nós. Não gostamos de nos sentir responsáveis pelos nossos erros, mas os outros não têm o poder para interferir nas decisões como pensamos. Temos recursos para atuar nas causas do sofrimento, mas é preciso saber a origem real dele. A insatisfação induz ao comportamento hostil em relação ao outro, mas a sua causa  está em alguma disfunção interna. O conhecimento é a verdadeira liberdade e a ajuda do  irmão gêmeo é fundamental. As águas nas nossas profundezas são calmas, como as do mar. Mas é preciso obstinação para alcançá-las. 

O processo de autoconhecimento é incômodo pois o irmão expõe nossos defeitos sem maquiagem. Não alivia. Mas ele ajuda no aprendizado de olhar para dentro e entender quem somos de verdade. Quais as ideias são realmente as nossas e quais vêm dos outros, da família, amigos, sociedade. Possibilita dispensarmos as personagens que criamos para agradar as pessoas e ser apenas a personagem de nós mesmos, a que nos traduz melhor, sem importar muito com as avaliações das pessoas. 

Há um sentimento novo, com dinâmica própria, diferente das forças que atuavam anteriormente. O sentimento atual, embora use a mesma linguagem, parte de matrizes diferentes, que não consideram tanto as expectativas dos outros. É um processo mental que se desenvolve com uma fórmula, cujos ingredientes, dentre outros, são pensar por nossa própria conta, fazer escolhas que combinam com nossos valores, perder o medo de ser quem somos. Doravante, tornar-se-ia possível questionar o que os outros dizem, parar de seguir regras que não fazem sentido para nós, aceitar os erros e acertos com mais tranquilidade. 

É salutar entender que tudo aquilo que temos contato na terra, na água ou no ar transforma–se em matéria psíquica. As coisas são como são, conforme as suas naturezas e o seu conjunto  forma o destino. Pensamos adaptá-las às nossas vontades, mas não conseguimos muito, porque é impossível mudar a essência delas. A solução é tentar compreendê-las. E mais uma vez contar com ajuda do nosso irmão gêmeo. Ele adverte: o que classificamos de  perfeição é apenas o desconhecimento da imperfeição. Desnecessário sofrer demais  por aquilo que talvez não tenha tanta importância. 

Neste aspecto, os sonhos são o mecanismo que revelam o que passa no subterrâneo, que não conhecemos como nosso irmão conhece. Os sonhos revelam os sentimentos com mais refinamento, alcançando todas as sutilezas. Veste-os como se fosse para algum evento. Os sentimentos de quando estamos acordados trocam suas roupas por outras mais cuidadas para se apresentarem através dos sonhos. Eles aparecem com certa solenidade, talvez para lembrar da  importância que têm na peleja do autoconhecimento. Dessa forma, oferecem elementos valiosos para as intermináveis conversas com o outro eu, no processo de desenvolvimento em direção à nossa unidade, que nunca termina. 

A VIAGEM DO SONHO 
Halal ud-Din Rumi

Com a oração da noite,
Quando o sol declina e se esconde,
Fecha-se a via dos sentidos
E abre-se o caminho ao não-visto.
O anjo do sono conduz então os espíritos
Como o pastor o seu rebanho.
Para além do espaço, em pradarias transcendentes,
Que cidades, que jardins ele nos mostra!
Quando o sono nos rouba a imagem do mundo,
O espírito contempla mil formas e maravilhas.
É como se habitasse desde sempre essas paragens,
Já não recorda a vida na terra,
Nem sente cansaço ou tristeza.
O coração liberta-se por inteiro
Do peso do mundo, de toda opressão,
E já nem percebe os cuidados que lhe são dedicados.

Nenhuma dor é tão forte que dura para sempre. Mas a esperança dura.

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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