POESIA DO MÊS

Publicado em: 30/09/2026 às 06:05

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KONSTANTINOS KAVÁFIS

À ESPERA DOS BÁRBAROS 

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?

Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.

Que leis hão de fazer os senadores?

Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo

e de coroa solene se assentou

em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.

O nosso imperador conta saudar

o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe

um pergaminho no qual estão escritos

muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores

usam togas de púrpura, bordadas,

e pulseiras com grandes ametistas

e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?

Por que hoje empunham bastões tão preciosos

de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,

tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores

derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje

e aborrecem arengas, eloquências.

Por que subitamente esta inquietude?

(Que seriedade nas fisionomias!)

Por que tão rápido as ruas se esvaziam

e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm

e gente recém-chegada das fronteiras

diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros, o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução.

(Trad.: José Paulo Paes)

DESDE AS NOVE 

Doze e meia. Depressa passou o tempo

desde as nove quando acendi o candeeiro

e me sentei aqui. Estava sentado sem ler

e sem falar. Com quem havia de falar

sozinho nesta casa?

A imagem do meu corpo de jovem,

desde as nove quando acendi o candeeiro,

chegou e me encontrou, e me evocou

fechadas alcovas perfumadas

e o prazer já passado — que ousado prazer!

E diante dos olhos me pôs também

ruas que agora já não reconheço,

centros de diversão que agora estão fechados

e teatros e cafés que já se foram.

A imagem do meu corpo de jovem

veio e também me trouxe coisas tristes:

os lutos de família, despedidas;

sentimentos dos meus e sentimentos

tão pouco atendidos dos mortos.

Doze e meia. Como passou o tempo.

Doze e meia. Como passaram os anos.

Konstantínos Kaváfis

Foto: Cavafy Archive Onassis Foundation Konstantínos Kaváfis (29/4/1863 - 29/4/1933) é considerado um dos maiores poetas da literatura grega moderna. Sua poesia tem forte conotação filosófica e histórica, usando imagens da herança helênica.

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