KONSTANTINOS KAVÁFIS
À ESPERA DOS BÁRBAROS
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros, o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
(Trad.: José Paulo Paes)

DESDE AS NOVE
Doze e meia. Depressa passou o tempo
desde as nove quando acendi o candeeiro
e me sentei aqui. Estava sentado sem ler
e sem falar. Com quem havia de falar
sozinho nesta casa?
A imagem do meu corpo de jovem,
desde as nove quando acendi o candeeiro,
chegou e me encontrou, e me evocou
fechadas alcovas perfumadas
e o prazer já passado — que ousado prazer!
E diante dos olhos me pôs também
ruas que agora já não reconheço,
centros de diversão que agora estão fechados
e teatros e cafés que já se foram.
A imagem do meu corpo de jovem
veio e também me trouxe coisas tristes:
os lutos de família, despedidas;
sentimentos dos meus e sentimentos
tão pouco atendidos dos mortos.
Doze e meia. Como passou o tempo.
Doze e meia. Como passaram os anos.





