CLARA NUNES (EN)CANTOU O BRASIL

Publicado em: 31/07/2026 às 06:02

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Ao assistir ao espetáculo Clara Nunes – A Tal Guerreira, primeiro protagonizado por Vanessa da Mata e, em 2025, remontado com Emanuelle Araújo, percebi que Clara Nunes nunca foi apenas uma cantora de sucesso. Sua trajetória ultrapassou a música e ajudou a contar parte da história da cultura brasileira, especialmente das religiões de matriz africana, que levou ao centro dos grandes palcos em uma época marcada pelo preconceito. Com texto de André Magalhães e direção de Jorge Farjalla, o espetáculo valoriza sua infância, sua espiritualidade e reafirma o lugar de Clara como a maior intérprete de samba de sua geração.

Um dos aspectos mais interessantes da montagem é a presença de Bibi Ferreira como fio condutor da narrativa. Amiga e parceira artística de Clara, Bibi dirigiu, em 1982, o espetáculo Clara Mestiça, um dos momentos mais marcantes da carreira da cantora. Na peça, essa relação revela uma artista que, por trás da força no palco, também cultivava amizades profundas e uma intensa dedicação ao trabalho.

Clara Francisca Gonçalves Pinheiro nasceu em 12 de agosto de 1942, em Caetanópolis, Minas Gerais. Filha de um violeiro e de uma dona de casa, perdeu o pai ainda na infância e começou a trabalhar cedo. Em Belo Horizonte, no bairro Renascença, trabalhou numa tradicional fábrica de tecidos da cidade, mas a música sempre fez parte de sua vida. Depois de vencer um concurso de rádio, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde decidiu investir definitivamente na carreira artística.

Os primeiros discos seguiram a linha romântica que predominava na época, com repertório próximo ao bolero. A grande transformação aconteceu no fim da década de 1960, quando Clara passou a pesquisar as raízes da música brasileira. O samba tornou-se a sua principal linguagem e foi muito além do gênero, incorporando ao repertório referências aos terreiros, aos congados, aos maracatus, às festas populares, a Escola de Samba Portela e às tradições afro-brasileiras, aproximando esses universos do grande público.

Essa mudança não foi apenas musical. Também expressava uma posição cultural e religiosa. Em um período em que as religiões de matriz africana eram alvo de discriminação, Clara assumiu publicamente sua fé. Vestia branco, usava fios de contas, dançava inspirada nos orixás e tratava sua espiritualidade com naturalidade. Não recorria a esses elementos como figurino ou recurso cênico, mas como expressão de sua própria identidade.

Canções como Conto de Areia, O Mar Serenou, Ijexá, Morena de Angola, Canto das Três Raças e Nação apresentaram ao grande público referências às religiões de matriz africana e à riqueza da cultura popular brasileira, contribuindo para reduzir distâncias e preconceitos.

Em 1975, Clara se casou com o poeta e compositor Paulo César Pinheiro. A parceria ultrapassou a vida pessoal e tornou-se também artística. Muitas das canções que marcaram sua carreira nasceram dessa convivência e ajudaram a construir uma das fases mais importantes da música popular brasileira.

Em uma indústria fonográfica dominada por homens, Clara Nunes foi a primeira cantora brasileira a vender mais de cem mil cópias de um único disco. Consolidou-se como uma das maiores intérpretes do samba e abriu caminho para gerações de mulheres que encontraram nesse gênero, espaço para suas próprias vozes.

A carreira foi interrompida de forma inesperada em 2 de abril de 1983. Após complicações decorrentes de uma cirurgia, Clara morreu aos 40 anos, quando vivia o auge de sua popularidade. Durante semanas, o país acompanhou seu estado de saúde pelos jornais, rádios e emissoras de televisão. Sua morte provocou uma comoção nacional. O velório reuniu milhares de admiradores, artistas e representantes do mundo do samba, tornando-se uma das maiores despedidas já prestadas a uma cantora brasileira.

Quatro décadas depois, Clara Nunes permanece viva na música e na cultura do país. Sua obra continua sendo gravada e revisitada por artistas de diferentes gerações. Maria Bethânia, Alcione, Leci Brandão, Teresa Cristina, Vanessa da Mata e, mais recentemente, Emanuelle Araújo ajudam a manter aceso um repertório que retrata a diversidade, a força e a identidade do povo brasileiro.

Clara é Água no Mar, é maré cheia…

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

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