TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR (*)

Publicado em: 30/09/2026 às 06:40

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Reprodução: 123RF

“Eu mudo ao longo do dia. Acordo e sou uma pessoa, e quando vou dormir sei com certeza que sou outra pessoa. Na maior parte do tempo, não sei quem sou. Isso nem importa para mim.”

(Bob Dylan)

 Vivemos os primeiros anos na mesma casa. Móveis de madeira maciça, usados pelos ocupantes anteriores. Os raros eletrodomésticos tinham conserto. O espaço sob assoalho servia como depósito de latas de tintas e caixas de papelão vazias, cascos de cerveja, pedaços de madeiras, sobras de construção, vasos sem plantas, que seriam usados novamente.  

Os pais trabalhavam em repartições públicas, empresas privadas ou negócios próprios, sempre na mesma atividade até se aposentar. Mães eram professoras ou cuidavam da família. Os rituais não mudavam. No almoço, o pai sentava-se na cabeceira e os lugares dos filhos eram definidos conforme as idades, enfileirados nos dois lados da mesa, o caçula no lado oposto ao pai. A mãe transitava entre a cozinha e a sala trazendo os pratos servidos prontos e não tinha lugar definido.

Íamos à escola, que sempre funcionou no prédio centenário, o mesmo uniforme de calça ou saia plissada azul marinho, gravatas para os meninos e meninas; camisas e meias brancas, sapato ou kichute pretos. As professoras impunham respeito e tinham prestígio na cidade. Questões da escola eram resolvidas lá, sem reuniões com os pais. Notas vermelhas no boletim sinalizavam pânico ao chegar em casa.

Era um tempo das coisas sólidas, das relações estáveis, comportamentos definidos pela sociedade, destinos traçados quase ao nascer.

Não é nostalgia ou romantização do passado. Havia tantos problemas e atitudes indesejáveis como no presente. Inclusive em relação às crianças. Nos denominados bons e velhos tempos o bullliyng era considerado apenas uma brincadeira inocente; chamar o companheiro de crioulo, uma prova de amizade; não matávamos dezenas de atores nos games, que não existiam, mas caçamos passarinhos com estilingues, ou escaldamos os gatos com água fervendo. 

A memória retém muito do que passou e permite recriar os fatos com tintas favoráveis, para usá-los de contraponto ao presente incômodo. O passado reconstruído é o presente que desejamos e não alcançamos, por vários motivos. Cópia inexata do original, mas é assim que desejamos. Âncora emocional, traz segurança e diminui a ansiedade.  Boas lembranças permitem não perder o rumo e amortecem a aflição nas crises. Não por acaso, o antigo idealizado afigura-se cada vez mais instigante. Na fuga da agressividade do presente ele funciona como abrigo e oferece parte do conforto que a mente necessita. Oásis de calma no presente sobrecarregado. 

Na outra configuração seríamos  médicos, advogados, técnicos eletricistas, atores no agrupamento onde o papel de cada um era moldado pela sociedade. Os grupos como religião, família, instituições cívicas, esportivas, filantrópicas etc. supervisionavam a aderência dos indivíduos ao modelo estabelecido coletivamente. A sociedade estipulava a conduta e acompanhava o seu cumprimento. O juiz estava fora do indivíduo. As pessoas compartilhavam os mesmos valores, credos, funções e costumes. Representavam o papel definido pela consciência coletiva bem arraigada. Não seguir os modelos era incômodo e arriscado.

Paulatinamente essa formatação foi se alterando e os costumes coletivos e normas consequentes se deslocaram até à possibilidade do indivíduo funcionar de acordo com parâmetros próprios, desde que mantivesse algumas posturas aceitáveis pelo grupo ou pelas leis. Foi permitida mais  liberdade individual, refletida em estilos de comportamento baseados nos padrões pessoais. Houve um movimento de desregulamentação do coletivo em direção às condutas e princípios individuais. Neste formato, o controle anterior efetuado pela sociedade foi internalizado e a pressão antes exercida de fora hoje vem das exigências estabelecidas por nós, responsáveis pela autogestão. Quando as regras que estipulam o “certo” e o “errado” deixaram de funcionar, o indivíduo adquiriu prerrogativa de criação da sua identidade e a responsabilidade pela construção dos seus valores.

O uso da palavra “legal” ilustra bem esta transformação. A versão original significa ”o que é permitido pela lei”. A lei prescrevia o comportamento que ela autorizava. Ou seja, havia um mandado irremovível que nossa vontade não poderia ultrapassar. No entanto, a gíria atualmente usa a mesma palavra para significar alguma coisa equivalente a “nós gostamos ou que nós aprovamos.” (**) Um termo que significava mandamento acima do indivíduo foi transformado para descrever julgamento de valor segundo a perspectiva de cada um. 

Após a extinção do modelo definido coletivamente o indivíduo pode fazer suas escolhas sozinho e, consequentemente, deve assumir o respectivo peso pelo erro. Na época do destino traçado pelos grupos, a liberdade era limitada, mas a responsabilidade do fracasso poderia ser repartida, o que diminuía a angústia.

Atualmente estamos sempre a reboque das obrigações que nós mesmos estipulamos. Precisamos demonstrar que somos bem-sucedidos e felizes, mas se o sucesso resulta da nossa atuação, o insucesso também. E o Instagram se incumbe de expor as imagens das pessoas que desejaríamos ser e na maioria das vezes não conseguimos. Talvez nem elas consigam. A mudança do centro coletivo para vários centros individuais diversificados provocou consequente esgarçamento da vida comunitária e familiar, desestruturando o aparato de apoio que funcionava nos momentos complicados. Sozinhos, ficamos desamparados. A solução engendrada pela mente constituiu em suprir a necessidade de aprovação do grupo pelo sucessor artificial dele: as redes sociais. O indivíduo adapta suas manifestações para ficar no território digital estruturado pelos algoritmos, de forma que receba curtidas e engajamentos que substituíram as demonstrações de afetos das pessoas que lhe eram próximas.

Não sei quantas almas tenho
(Fernando Pessoa)

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é.

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

A antiga forma de viver baseada na estabilidade não funciona mais, como vimos, e agora prevalece a instabilidade. Se ficarmos ansiosos por objetivos não alcançados mudamos o status quo: frequentamos outra academia, compramos curso digital, trocamos de carro, de namorada, de apartamento. Alteramos o entorno para atualizar nossa versão. Embora queiramos acreditar que é possível dispormos de up grade, como nos I Phones, os neurônios não funcionam da maneira dos chips e a nossa mente tem dificuldade de lidar com padrões que alteram incessantemente. Sempre on line, postando imagens da felicidade que imaginamos sentir, não enganamos a alma. Dezenas de pessoas clicam nos posts em nossas redes, enquanto permanecemos sozinhos. O tédio acaba sendo a única companhia.

Imagem da IA produzida pelo autor.

Diante desta conjuntura, cabe a pergunta: se já fizemos tantas atualizações do nosso software e mesmo assim continuamos angustiados, porque não tentar outra forma de fugir da amargura, ainda que momentaneamente? Coragem de experiência radical: manter o celular desligado e permanecer fora do alcance do selfie. Sair do mundo da fantasia, onde somos personagens moldados pelos algoritmos, e seguirmos até onde as coisas sólidas não se desmancham. 

Seguirmos até a ilusão de habitar o mundo real.

(*) Tudo que é Sólido Desmancha no Ar – Marshall Berman – Cia das Letras. 

 A expressão usada como título do livro foi citada originalmente no Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, publicado em 1848. Os autores usaram o termo para descrever como a burguesia e o sistema industrial transformaram o mundo feudal antigo.

(**) Victor Stirnimann – CBN – Petria Chaves

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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