Tirei RG aos (quase) doze anos. Estava com sarampo, abatida. Saí ligeiramente prejudicada na 3×4 em preto-e-branco que me identificaria dali por diante.
Minha mãe também precisava tirar o dela, fomos juntas. Assim, nossos RGs foram numerados em sequência. Primeiro o dela, par, depois o meu, ímpar. Ela tinha quarenta e três anos e estava doente. A 3×4 escondeu direitinho.
Passei a adolescência achando a coisa mais linda, aquela numeração. Ainda acho. Veja: no documento e na vida, ela veio primeiro, eu vim depois. Ela se foi primeiro, eu vou depois. Continuo por aqui, aguardando minha vez. Meu RG é minha senha com Deus. Ele quem decide. Par ou ímpar?
Guardei comigo o RG dela. Ela não precisa mais. Eu sigo precisando do meu para tudo. Tive que renová-lo; a menina com sarampo envelheceu e ninguém mais aceitava um documento da década de 70. Na 3×4 nova e colorida e digital estou mais parecida com a minha mãe. Pudera: tirei-a com quase a mesma idade que ela tinha, quando tirou a dela.
Nas fotografias, a gente congela o tempo. Até as doenças. Mas eu sarei. Ela, não.





