ALCEU DA AUTOPEÇAS / A CASA-MUNDO

Publicado em: 30/06/2026 às 07:15

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1 – ALCEU DA AUTOPEÇAS 
João Vizzotto

Era uma tarde morna, dessas em que até o tempo parece cochilar junto com os velhos hábitos da cidade. No moinho de fubá — que já moía mais histórias do que milho — estavam o Velho Vizzotto e Alceu da Autopeças, dois personagens que, se não existissem, o interior teria inventado só para não perder a graça.

Naqueles tempos, a cidade vivia da agricultura e dos serviços que ela paria com suor e enxada. Carros eram raros, as ruas empoeiradas, e a Prefeitura fabricava lajotas onde mais tarde brotaria nosso campo de futebol — que depois virou a famosa pracinha, ponto de encontro e desencontro. As fazendas fervilhavam de gente: lavradores em regime de meação, proprietários de pequenos sítios e uma fartura que parecia não ter fim. Plantava-se de tudo: arroz, feijão, amendoim, algodão e outras culturas que hoje só se vê em livro de história ou em conversa de bar. A gente esperava com gula a época das mexericas pokan, que os lavradores traziam para meu pai como quem entrega ouro em forma de gomos.

Nossa casa tinha um quintal que, aos olhos de criança, era quase uma savana. Hoje, quando volto lá, percebo que o tal quintal não era tão grande assim — mas tinha uns três pés de manga e uns cinco ou seis de jabuticaba, o suficiente para virar ponto turístico na época das frutas. Minha mãe distribuía jabuticabas como quem distribui bênçãos, para a vizinhança e para o pessoal do Patrimônio. Nós, moleques, ficávamos na frente da casa oferecendo jabuticabas às meninas que passavam. Elas subiam nos pés e a gente ficava embaixo tentando ver as calcinhas delas — arte moleque, sem maldade, mas com curiosidade em ponto de fervura. Quando descobriram, gritavam como quem viu fantasma, e minha mãe nos colocava de castigo com a autoridade de quem já tinha criado mais menino do que galinha.

Voltando à conversa entre meu avô e Alceu da Autopeças, os dois filosofavam sobre tudo e todos, como bons pensadores de calçada. Lá pelas tantas, Alceu, com o cenho franzido e a alma em desalento, começou a reclamar da economia. E quando digo reclamar, é reclamar com gosto, como quem mastiga uma bronca com farinha.

Alceu era desses que culpava o governo até pelo tempo seco, mesmo quando o céu estava azul por conta própria. — O negócio está ruim, Seu Vizzotto. Em Colina, o dinheiro não circula. Está tudo parado, como água de poço — desabafou, olhando para o horizonte como quem espera que a solução venha montada num cavalo branco.

O Velho Vizzotto, que já tinha visto mais crise do que eleição, escutava com aquele jeito de quem sabe que o mundo gira, mesmo quando parece emperrado.— Estou pensando em abrir a loja lá em Guaíra — confidenciou Alceu, com olhos de esperança. — Lá o dinheiro corre, diferente daqui. Vizzotto, que nunca deixava passar uma deixa sem uma tirada, coçou o queixo, ajeitou o chapéu e soltou, com a sabedoria de quem já viu o dinheiro correr… mas sempre longe:

— Pois é, meu amigo… Aqui, onde o dinheiro está parado, você não consegue pegar. Imagina lá em Guaíra, onde ele corre — e você tem que ser mais rápido que ele!

2 – A CASA-MUNDO
Francisco França 

Para Odette

                            A casa era o mundo. O mundo era a casa.

A primeira casa nos acolheu quando chegamos lá nos braços da mãe, embrulhados no cueiro. Nela aprendemos a identificar cheiros, sons, gostos, palavras, emoções dos abraços, ternura da mãe, pai, irmãos, vizinhos que traziam quitandas temperadas com afetos. Podíamos chorar, subir nos móveis usando as gavetas como escadas, bater palmas a qualquer momento, fazer caretas. Sem restrições ou impedimentos que atrapalhassem muito.

Freud definiu esta condição da primeira infância como “sentimento oceânico”, semelhante  àquele produzido pelo sentimento religioso. Graças ao ego pouco desenvolvido era possível estabelecer sintonia e alinhamento com tudo ao nosso redor. As fronteiras entre os mundos interior e exterior eram tênues, induzindo a idéia que a nossa casa era do tamanho do mundo, onde vivíamos de forma plena. 

Os primeiros anos  foram aqueles em que vivemos integralmente, favorecidos pelas condições que impulsionavam a mente e o corpo. Aventura diária ao renovar sensações, descobertas, ampliação incessante dos conhecimentos. Os cômodos, que pareciam enormes, eram as bases de onde partíamos nas viagens através da imaginação.

O sábio e a criança não precisam se afirmar, são plenamente o que são, e pronto.” (Alexandre Jollien – O Caminho da Sabedoria.)

No centro do mapa situava a copa, mesa grande, onde de manhãzinha Tereza colocava o café, leite, cuscuz de fubá cozido no vapor, que subia pelos furos da panela de pedra e amolecia os pedaços de rapadura e queijo, sem derretê-los. Às vezes o café com leite era virado no prato, formando espécie de mingau quente, acrescido de cravo e pedaços de canela.

Na parede bem em frente à mesa  ficava o quadro oval com o retrato dos avós paternos retocado pelo José das Messias, o fotógrafo predecessor do Photoshop. Ninguém gostava daquele lugar porque nos sentíamos observados pelo avô e seu bigode enorme. Ao lado, o quadro da Santa Ceia, definindo a função do local. 

A cristaleira triangular se encaixava na quina, ao lado da vitrola, rádio de válvulas que pareciam lâmpadas de iluminação fraca. A cristaleira foi encomendada ao Jaime Marceneiro, forrada de espelhos e vidros transparentes para que os objetos pudessem ser vistos. Uma xícara de chá pintada com reproduções de quadros antigos e asas douradas e o bule bico de jaca, denominação que nunca entendemos, pois as jacas do quintal não possuíam bicos. Compoteira imitando cristal Murano, com doces para servir às visitas. Cinzeiro em forma de casinha, da chaminé saia a fumaça do cigarro;  réplicas de estátuas gregas e animais de louça trigo. Pensávamos que eram objetos de grande valor, e  depois percebemos que o valor era sentimental, maior do que o dinheiro poderia pagar. 

Enfeitavam o período mais rico da nossa infância. 

Nos quartos dos meninos, além das camas havia somente a mesinha de estudo, e os posters de página inteira do jornal Estado de Minas com fotos de várias equipes do Galo, coladas nas paredes.         

Já no quarto das irmãs, as paredes eram forradas com fotos de artistas. Em frente, a penteadeira com caixa redonda de pó de arroz Cashmere Bouquet. Ao abri-la surgia uma pequena almofada e fita branca para segurar. A pele das meninas ficava rosada como as das suas bonecas de papel marche. 

Nossos pais tinham o quarto maior, que comportava também um guarda roupa chipandelle de madeira clara. A metade superior da porta era de vidro com uma cortina pregueada. Junta, a cômoda de  grandes gavetas, com as nossas roupas dobradas em pilhas conforme o uso. Sobre a cômoda, mais alguns bibelôs, uma imagem da Nossa Senhora do Carmo dentro de uma redoma de vidro e um crucifixo de madeira com Jesús pregado. Ele servia também para nossa mãe pendurar seu cordão e camafeu, quando não estava usando. E, ainda, a caneta tinteiro Parker 51 do nosso pai e o mata borrão em formato de meia lua. Ao lado da cama, a poltrona capitonê, para colocar as roupas na hora de dormir. 

Infância

(Carlos Drummond de Andrade)

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Essa foi a primeira casa, de onde saímos prometendo voltar e nunca cumprimos. O paraíso perdido para sempre. Aos poucos, assim como aconteceu conosco, todos os demais habitantes lhe abandonaram e a casa ficou vazia, o alarido cessou. Esmaeceu o constante movimento das pessoas, os risos, choros, comemorações, solenidades, eventos. A casa, imóvel, não acompanhou os seus moradores quando seguiram nos caminhos que o destino lhes apresentou.  

Então, como tentativa extrema de permanência, ela foi reconstruída com peças imateriais. A existência física transformou-se em abstrata. Solução engendrada pela mente para manter ativos os poderosos vínculos de quando estávamos lá. As paredes descoradas, e todos os moradores, e tudo que se espalhava nos seus espaços estabeleceram conexões com as lembranças de hoje. O mecanismo do tempo transformou em lembranças o que havia de encanto. A mente pratica sua função de guardiã desse período e do lugar onde tantos fatos inesquecíveis aconteceram, tantas relações afetivas. Como fizesse mágica, a mente resgatou as conversas, luzes, cheiros, os objetos que pareciam banais e transformou-os  em sentimentos, lhes devolvendo à realidade, apresentando-os outra vez, como se estivéssemos na época em que praticamos a nossa inteireza. 

As recordações mantêm viva a casa-mundo, que não existe mais. 

João Aberto Vizzotto

João Vizzotto nasceu em Colina, São Paulo. Depois de formado em Direito, um concurso público o levou para as Minas Gerais, ha mais de 40 anos. Casado com Ana Maria, têm 3 filhos. Curte a vida de aposentado viajando e lendo os livros dos meus amigos escritores.

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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