EMICIDA – MÚSICA E LITERATURA COMO AÇÕES POLÍTICAS

Publicado em: 30/09/2026 às 06:20

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Ao participar de uma mentoria sobre o envelhecimento da população brasileira, o mentor perguntou qual personagem atual tem minha admiração. Ao responder Emicida, a curiosidade foi geral. As pessoas queriam saber por que uma mulher de 70 anos tem uma grande admiração por um rapper.

Para os leitores e leitoras do Echo da Matta eu conto o porquê.

Leandro Roque de Oliveira nasceu em São Paulo, em 17 de agosto de 1985, e cresceu na periferia da Zona Norte paulista. Filho de Dona Jacira, artesã e trabalhadora doméstica, e do DJ Miguel, que faleceu quando Leandro tinha 6 anos.

Leandro foi um adolescente que sonhava em ser quadrinista. Passava horas diante da televisão assistindo a desenhos e desenhando. Chegou a assinar seus trabalhos como LRX (Louco Revolucionário X ) e foi através do desenho que se aproximou da turma do hip-hop. Vieram as primeiras letras, os desenhos, o grafite, os quadrinhos, a música, a moda e o audiovisual, numa verdadeira colcha de retalhos falante.

No início dos anos 2000, entrou nas batalhas de freestyle, forma de expressão artística improvisada, com rimas construídas no momento, em que dois MCs se enfrentam usando a palavra como instrumento. Leandro se destacou pela impressionante capacidade de improvisação, venceu a Liga dos MCs, no Rio de Janeiro, em 2006, e acumulou sucessivas vitórias.

Em uma brincadeira com MC + homicida, pela ideia de “assassinar” os adversários nas batalhas, surgiu EMICIDA, seu nome artístico. Mais tarde, o próprio nome ganhou outro significado: E M I C I D A — Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte.
Talvez seja justamente a palavra que melhor ajude a compreender Emicida.
Sua inteligência, a consciência da força das palavras e a capacidade de conectar referências aparentemente distantes são características marcantes de seu trabalho. Junto do rapper existe um estudioso da música brasileira.

Em entrevista ao Estado de Minas, ele cita James Brown, Marvin Gaye, Elis Regina, Ivan Lins, Jair Rodrigues, Pixinguinha, Roberto Carlos e Wilson Simonal como referências artísticas. Cita também o pai como responsável por sua aproximação com a música negra e por seu contato com o rap brasileiro antes mesmo de conhecer profundamente o rap norte-americano.

Emicida não trata a cultura como compartimentos separados. Coloca o rap para conversar com samba, soul, MPB, funk, gospel, música africana, literatura, cinema e história do Brasil. Seu trabalho parece partir da compreensão de que nenhuma manifestação cultural nasce sozinha. Uma coisa leva à outra, uma música guarda outra música, uma história carrega outras histórias.

Seu primeiro single, Triunfo, de 2008, tornou-se um divisor de águas na construção de sua carreira fonográfica. Em 2009, lançou a lendária mixtape Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até que Eu Cheguei Longe, com 25 faixas.
As gravações foram feitas de forma artesanal e os CDs eram copiados e vendidos por dois reais, em embalagens de papel pardo.
A mixtape também marcou o nascimento do Laboratório Fantasma, criado por Emicida e seu irmão Evandro Fióti. Mais do que uma carreira musical, surgiu ali uma estrutura cultural que passou a trabalhar com gravadora, produção de eventos, audiovisual e moda.

O Laboratório Fantasma teve uma importância que ultrapassa a música. Emicida criou meios para produzir, distribuir e comercializar a própria cultura. Em vez de esperar que o mercado descobrisse a periferia, construiu uma estrutura para que a periferia pudesse falar diretamente com o mercado, sem precisar abandonar sua estética, sua linguagem ou sua origem para ser aceita.

Entre 2013 e 2015 vieram O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, aproximando o artista ainda mais da música tradicional brasileira, com participações de nomes como Caetano Veloso, em “Baiana”, e Vanessa da Mata, em “Passarinhos”.
É também nesse período que aparece um outro Emicida.


O rapper combativo não desaparece, mas passa a existir ao lado de um compositor interessado no cotidiano, no belo, nas fragilidades das relações humanas e nas perguntas que não têm resposta imediata. O próprio Emicida chamou essa fase de “metafísica”: a obsessão com a forma dá lugar à busca pela essência das coisas.

A literatura também entrou nesse percurso. Emicida publicou Amoras, em 2018, seu primeiro livro infantil, ilustrado por Aldo Fabrini. Nascido de uma música de mesmo nome, o livro trata de identidade, negritude e pertencimento a partir de uma conversa entre pai e filha. É uma história para crianças, mas não infantiliza questões importantes: fala sobre reconhecer-se, gostar de quem se é e compreender a própria história. (Companhia das Letras⁠)

Em 2020, veio E foi assim que Eu e a Escuridão ficamos Amigas, novamente com ilustrações de Aldo Fabrini. Dessa vez, Emicida parte do medo do escuro para falar sobre o desconhecido. A menina teme a escuridão, enquanto, do outro lado, a própria escuridão teme a claridade. A inversão é simples e inteligente: aquilo que assusta também pode ter seus próprios medos. O livro amplia uma característica presente em sua obra musical: a disposição para olhar uma questão por mais de um ângulo. (PublishNews⁠)

Os dois livros ajudam a compreender que sua relação com a palavra não depende do ritmo, do microfone ou do palco. Emicida escreve para crianças sem diminuir o tamanho das perguntas. E é assim que sua literatura conversa tão bem com sua música: em ambas, existe o desejo de ampliar o mundo de quem lê ou escuta.

E então surge AmarElo.

Mais do que um álbum, AmarElo constrói uma narrativa sobre o Brasil a partir da experiência negra. É música, mas também memória, pesquisa, história e encontro.
O amarelo aparece como uma cor quente, que transmite calor, chama a atenção e sugere mistura. Emicida também relaciona o nome ao poema de Paulo Leminski: “amar é um elo entre o azul e o amarelo”.
A música que dá nome ao projeto reúne Majur, Pabllo Vittar e um trecho de Sujeito de Sorte, de Belchior. O álbum é uma espécie de biblioteca em que os convidados são também referências vivas: Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira, MC Tha, Zeca Pagodinho, Drik Barbosa, Larissa Luz, Fernanda Montenegro, Dona Onete, José Santiago, Papillon e Ibeyi, entre outros.
AmarElo mistura religião, samba, rap, literatura, MPB, tradição amazônica e juventude negra. Não para apagar as diferenças, mas justamente para colocá-las em conversa. 

                                         Emicida no Theatro Municipal de São Paulo, em 2019


Em 27 de novembro de 2019, Emicida apresentou AmarElo no Theatro Municipal de São Paulo, o mesmo espaço que havia recebido a Semana de Arte Moderna de 1922.
As duas sessões tiveram os ingressos esgotados em dez minutos e fizeram parte da programação do mês da Consciência Negra.
A apresentação foi registrada em áudio e vídeo e, em 2020, transformou-se no documentário AmarElo — É Tudo Para Ontem, dirigido por Fred Ouro Preto e lançado pela Netflix.
O documentário estabelece uma ponte entre diferentes momentos da história brasileira: a Semana de Arte Moderna de 1922, a criação do Movimento Negro Unificado, em 1978, e o projeto AmarElo, em 2019.

É aqui que consigo explicar melhor porque Emicida me interessa.
Não é por ele ser um rapper. É pelo que ele faz com aquilo que aprendeu.
Ele não parece interessado apenas em mostrar que sabe. Ele pesquisa para estabelecer relações. Busca no passado elementos para compreender o presente. Aproxima pessoas, linguagens e gerações que muitas vezes foram ensinadas a permanecer separadas.
É essa capacidade de amplitude que tanto me atrai.

Dona Jacira.

A presença da mãe está presente na história de Emicida de uma maneira especialmente bonita. Artesã e trabalhadora doméstica, ela não aparece apenas como a mãe de um artista famoso. Ela faz parte do repertório de mundo que ajudou a formar o homem que veio depois.

Talvez não seja coincidência que um artista tão interessado em memória, ancestralidade e transmissão de conhecimento tenha vindo de uma casa onde o trabalho manual, a sobrevivência e a cultura estavam tão próximos.
Ele entendeu cedo que uma pessoa pode nascer em uma casa pequena, quase sem janelas, sem ter uma visão pequena do mundo.
Emicida abriu janelas e portas para colocar pessoas na sala de visitas. 

Produção literária para crianças: 

Amoras (2018). Autor Emicida. Cia das Letrinhas

E foi assim que eu e a Escuridão ficamos amigas (2020). Cia das Letrinhas

Conta Comigo (2026). Autores Emicida e Esther Duflo. Cia das Letrinhas 

Volta por Cima (2026). Autores Emicida e Esther Duflo. Cia das Letrinhas 

Discografia de Emicida

Pra quem já Mordeu um Cachorro por Comida, até que eu Cheguei Longe… (2009)

Emicídio (2010)

Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011)

O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013)

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa… (2015)

Língua Franca (com Rael, Capicua e Valete) (2017)

AmarElo (2019)

Emicida Racional VoL.2: Mesmas Cores e Mesmos Valores (2025)

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

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