A POLÍTICA NAS MÚSICAS DE MILTON NASCIMENTO

Publicado em: 30/10/2026 às 17:44

Atualizado em: 30/10/2026 às 17:44

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Mural Milton Nascimento em Belo Horizonte. (Artista: Kaká Chazz)

Uma amiga me convidou para um café e passou o endereço assim: “É ali na Álvares Cabral, entre Timbiras e Espírito Santo, pertinho do Milton”.
O que minha amiga me disse, mineiramente, é que nosso encontro seria perto do novo marco cultural de Belo Horizonte: um mural de 1.600 metros quadrados em homenagem a Milton Nascimento, um dos maiores nomes da música brasileira. A obra é assinada pelo artista mineiro Kaká Chazz e foi concluída em setembro de 2026 para comemorar os 84 anos de Milton (26/10).
O mural retrata o artista em diferentes momentos de sua trajetória, desde o início até sua representação com o figurino da turnê de despedida dos palcos, em 2022. A obra traz elementos inspirados no barroco mineiro, no sertão, na fé e na cultura popular.
E foi diante desse espetáculo visual que eu e minha amiga conversamos sobre a dimensão musical de Milton, presente na poesia, na defesa da liberdade, na abordagem da opressão dos povos negros, nas desigualdades sociais e na ditadura militar.
A conversa nos levou a percorrer algumas das canções que ajudam a compreender por que Milton Nascimento ocupa um lugar tão importante na história cultural e política do Brasil. Não se trata de atribuir um significado político a cada verso, mas de reconhecer como sua obra dialoga com as questões sociais de seu tempo e continua provocando reflexões no presente.

 OS ESCRAVOS DE JÓ
Lançada no álbum Milagre dos Peixes, de 1973, a canção de Milton Nascimento e Fernando Brant é um dos exemplos mais contundentes da repressão sofrida pela música brasileira durante a ditadura militar.
A letra foi praticamente vetada pela censura. Os registros históricos mostram que os censores identificaram nela contestação política, sátira e protesto. A denúncia das relações de exploração e as referências à escravidão e ao racismo estavam entre os elementos que tornam a história dessa canção especialmente significativa.
Milton decidiu gravar a música sem os versos proibidos, recorrendo à força dos arranjos, da interpretação vocal e dos sons para expressar o que não podia ser cantado.

 HOJE É DIA DE EL-REY
Também presente em Milagre dos Peixes, a canção, de autoria de Milton Nascimento e Márcio Borges, teve sua letra censurada em 1973, integrando o conjunto de obras que enfrentaram a repressão do regime militar. Sua trajetória revela o receio das autoridades diante da arte que questionava as estruturas de poder e abria espaço para leituras críticas da realidade brasileira.
Milton gravou a faixa sem a letra vetada, preservando a composição e sua força expressiva.
A censura não atingia apenas discursos políticos explícitos. Metáforas, narrativas e formas indiretas de contestação também podiam despertar a atenção dos censores. A história dessa canção nos ajuda a compreender o ambiente de vigilância e restrição à liberdade artística vivido pelos compositores brasileiros naquele período.

SAN VICENTE
Composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, San Vicente integra o universo do Clube da Esquina e amplia o olhar para além das fronteiras brasileiras.
A canção fala de uma América Latina tomada por conflitos, desigualdades e disputas políticas. É uma construção musical e poética que nos permite refletir sobre as experiências dos povos latino-americanos e sobre a relação entre identidade, território e liberdade entre os povos.

CREDO
Aqui, Milton Nascimento e Fernando Brant expressam uma visão de mundo que valoriza a vida, o povo, a possibilidade de transformação e a confiança depositada na capacidade coletiva de construir novos caminhos. Em vez de aceitar as injustiças como algo inevitável, a obra nos convida a pensar na responsabilidade de cada geração diante do futuro.
É uma perspectiva que mostra a necessidade de preservar a esperança mesmo em períodos difíceis.

CORAÇÃO DE ESTUDANTE
Composta por Wagner Tiso, com letra de Milton Nascimento, Coração de Estudante nasceu no contexto do documentário Jango, sobre o ex-presidente João Goulart.
Lançada no início dos anos 1980, tornou-se uma das canções mais associadas à luta pela redemocratização brasileira e embalou manifestações das Diretas Já, movimento que reivindicava eleições diretas para a Presidência da República.
Sua mensagem de esperança e renovação encontrou eco em uma sociedade que desejava superar a ditadura e recuperar o direito de escolher seus representantes.
A canção passou a integrar a memória política nacional e se transformou em símbolo de uma época.

MENESTREL DAS ALAGOAS
Composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, Menestrel das Alagoas homenageia Teotônio Vilela, senador alagoano que se tornou uma das figuras importantes da luta pela redemocratização do país.
Teotônio, inicialmente ligado à base política do regime militar, passou a defender a anistia e o retorno das liberdades democráticas. Sua mudança de posição e seu compromisso com a abertura política fizeram dele uma referência para aqueles que lutavam contra a permanência do autoritarismo.

FÉ CEGA, FACA AMOLADA
Composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, a canção apresenta uma energia musical que combina inquietação, coragem e disposição para enfrentar dificuldades, permitindo uma leitura política ligada à resistência e à capacidade de seguir mesmo diante dos obstáculos.

O QUE FOI FEITO DEVERÁ
Milton Nascimento e Fernando Brant refletem sobre o tempo, as escolhas e os caminhos percorridos.
A canção fala da distância entre os sonhos de uma geração e a realidade que se construiu. O que aconteceu com os ideais que mobilizaram tantas pessoas? O que permanece das lutas e dos projetos coletivos? O que ainda precisa ser realizado?

MISSA DOS QUILOMBOS
Lançada em disco em 1982, Missa dos Quilombos é uma obra de grande importância social e cultural, concebida por Milton Nascimento, com textos de Pedro Tierra e Dom Pedro Casaldáliga.
A obra questiona a escravidão, denuncia o racismo e dá visibilidade à resistência da população negra. Ao aproximar a linguagem musical e religiosa da história dos quilombos, coloca em discussão a violência de uma sociedade construída também sobre a exploração das pessoas escravizadas.

TRAVESSIA
Para encerrar nosso café, falamos da lindíssima travessia da música mineira para o mundo, em 1967. Fernando Brant e Milton Nascimento nos falam sobre seguir em frente, mas não necessariamente encontrar uma vida melhor depois da dor.
Na vida real, há sofrimentos que não desaparecem, ausências e perdas que nos transformam para sempre.
Recomeçar não é voltar a ser quem éramos. É aprender a viver de outra forma, carregando marcas, revendo e descobrindo novos sentidos.
A travessia não é a passagem da dor para a felicidade, mas o elo entre a vida que tínhamos e aquela que ainda podemos construir.
(já não sonho. hoje faço do meu braço o meu viver)

E, diante daquele mural que agora integra a paisagem de Belo Horizonte, eu e minha amiga brindamos Milton Nascimento.
Brindamos a Fernando Brant.
Brindamos o Clube da Esquina.
Por tudo. Por tanto.

Odette Castro

Artista, escritora, ativista da inclusão e palestrante. Criadora dos projetos Uma Flor por Uma Dor e Letramento de Comunicação Inclusiva Mãe e Vó.

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