A VERDADE  DOS FATOS E A NOSSA

Publicado em: 30/10/2026 às 17:52

Atualizado em: 30/10/2026 às 17:55

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Melancolia e Mistério de uma Rua - De Chirico

Existindo somente uma verdade de cada coisa, aquele que a encontrar conhece a seu respeito tanto quanto pode conhecer. (René Descartes – Discurso do Método)

Eleições são bom exemplo de como a percepção dos fatos é conduzida pela mente conforme nossas aspirações, mesmo se conseguimos vê-los  com clareza no início. Ela separa aquilo que desejamos ver e descarta o que não desejamos, de forma que o resultado seja favorável. A realidade objetiva é somente uma mas na visão subjetiva ela se transforma em outra conforme desejamos ou necessitamos perceber. Os partidários de um candidato confiam que ele seja a pessoa indicada para governar, mesmo que haja fatos escabrosos em seu passado. O que desabona é  simplesmente jogado no lixo do inconsciente e não participa  da decisão em votar nele. Assim também em relação ao candidato do outro lado. 

Com o tempo desenvolvemos um método  de se relacionar com os acontecimentos. Eles são reproduzidos dentro da cabeça. Ao invés de fazer uma avaliação do que acontece fora, estabelecemos interação com as suas naturezas. Passam a fazer parte da mente, tratados como se fossem elementos dela. Os acontecimentos são sentidos e não apenas conhecidos. Quando a manifestação proveniente do exterior é recebida, passa por um filtro formado pelas nossas emoções e recebe o nosso material psicológico.

Após longa convivência com os  fatos  percebemos que eles chegam puros, mas à medida que atravessam a nossa mente são impregnados pelos pensamentos, desejos, sentimentos e emoções estocados na alma. Os fatos autênticos dificilmente permanecem puros no território mental. Ao atravessarem o posto de fronteira emocional e carimbar o visto de entrada na mente, ganham novos contornos. À medida que viajam, as informações são examinadas, traduzidas e interpretadas. Embora mantenham alguns elementos originais, são transformadas de acordo com os sentidos, linguagem, cultura, memória e estruturas lógicas, como se fossem lentes que lhes dão outros matizes. Os fatos objetivos se ampliam para absorver as questões psicológicas. A realidade é moldada por estas condicionantes e, por isso, nossos olhos podem enganar. Enxergam um quadro originado da realidade, mas o quadro é maquiado no inconsciente.

Além disso, muitas  imagens nem estão à nossa frente, não chegam através dos olhos, mas são trazidas pelas lembranças, tão mais nítidas quanto o nosso envolvimento com os acontecimentos de onde saíram.  São vários exemplos de como estávamos enganados ao ver imagem que não correspondia àquela que imaginávamos. Quando perdemos um ente querido deparamos com pessoas que ao longe se parecem e percebemos que não era bem assim ao chegarmos perto. A saudade de quem se foi é tão grande que induz encontrarmos sua imagem em outras pessoas e escapar por alguns segundos. O mundo que chega à consciência não é o mundo que está à nossa frente. A realidade contemplada não é um espelho fiel do exterior, mas aparência dele.

Ainda deve ser considerado que o DNA é composto de 50% de material genético do pai e 50% da mãe, e ambos herdaram de várias gerações e nos repassaram. O que somos é composto da herança direta deles e dos que vieram antes. Os cabelos, cor dos olhos, da pele, altura são características  deles e dos seus ancestrais. Da mesma forma que o corpo está impregnado de sinais bem representativos dos antepassados, a alma também recebe atributos e experiências, suas trajetórias de vida e dos lugares onde transitaram. Heranças que influenciam nossa forma de pensar, valores, no que acreditamos. E, principalmente, também influem na forma de ver o mundo. Nossas características, inclusive as que herdamos, interferem na visão do mundo. 

Você é aquilo que ninguém vê. Uma coleção de histórias, estórias, memórias, dores, delícias, pecados, bondade, estratégias, sucessos, sentimentos e pensamentos. Se definir é se limitar. Você é um eterno parênteses em aberto, enquanto sua eternidade durar. (Machado de Assis)

Não analisamos a realidade para descobrir como ela é, nua e crua, mas para completá-la de forma que se pareça àquilo que nos traz conforto. Convivemos com a realidade  como nós somos. Diversa daquela que é apresentada aos olhos, à nossa visão da realidade são acrescidas dores, medos e emoções, inclusive os que foram recebidos através de quem convivemos. A distorção dos fatos processada pela mente permite que tenhamos motivações emocionais e afetivas que ditam caminhos e nos mantenha na estrada usando da força mental. 

Quando os fatos chegam ao final do trânsito pela mente, eles e as suas verdades correlatas tantas vezes foram modificados que não mais identificamos as imagens no início, mas apenas à interpretação delas. Ou seja, jamais veremos a realidade tal como é, mas somente como é apresentada pelas forças mentais. Seja a paisagem à frente da janela ou a formada pelas lembranças.

E qual paisagem queremos ver?

Sentado na varanda, distraído, vejo no outro lado da rua, ao invés  do enorme prédio, a casa de alpendre, com duas colunas e o chão branco, liso, propício ao futebol de botões. Os irmãos e vizinhos, mais ou menos da mesma idade, disputam campeonato acirrado, ainda sem ganhador. Em frente, no jardim muito bem cuidado, nenhuma  folha seca no canteiro, cacos devidamente cheios, pétalas das rosas caem quando chove.  Naquela época, no calor das partidas, não prestamos atenção em volta, mas vendo-o agora, neste dia frio, o jardim se mostra fascinante, inspirando tranquilidade trazida pelo silêncio.

A porta ficava aberta, assim como as portas de todas as casas, onde podíamos entrar e sair para receber agrados dos moradores, geralmente encontrados na cozinha, ao final do corredor. Ao lado da casa, o escritório possui muitas prateleiras atulhadas de pastas que parecem nunca ter  saído dali. E muitos livros, inclusive “As Mil e Uma Noites”. Próximos, a Praça do Coreto, Igreja, Hotel e o Café.

Nos arredores da cidade há uma mata, cipós amarram uma árvore à outra. No chão,  galhos que temos de desviar, ramagens que escondem buracos e frutas maduras parcialmente comidas pelos passarinhos. De vez em quando, um tronco atravessado dificulta a caminhada, mas conseguimos passar por baixo, se esgueirando para não rasgar a camisa nos espinhos. Escutamos cantos de aves, sons das folhas e alguns outros que não identificamos. No final da trilha há uma pequena clareira por onde passa um córrego entre as pedras. A água é muito fria e parece que nossos dedos irão endurecer, caso demoremos para tirar a nódoa das mãos.

Brincadeira

(José Narciso Bedran)

Do jeitinho como se praticou na infância, 

a gente simula compromissos, 

finge que está muito azafamado, 

que trabalha numa lojinha ou escritório.

A gente representa constituir uma família, 

aguarda todos os dias a sorte grande, 

arremeda competições e enche gavetas, 

ignora que se adoece ou se morre. 

E quem – me digam, por favor – 

não aprendeu a brincar?

Ainda é manhã quando saio da casa, mas entre a varanda e o passeio 40, 50 anos sumiram. Do outro lado da rua o enorme prédio volta a ocupar o lugar de sempre. Penso que o vejo em seu formato real, mas não tenho certeza, assim como não sei se a casa, onde também estava momentos antes, ainda existe.

Pergunto a mim mesmo: 

– Sabe o que eu queria?

– Queria jogar botões, brincar novamente. Talvez nem  incomodasse de perder o campeonato.

Francisco França

Francisco França casado com Suzana Magalhães. Dois filhos - Luísa e Vitor. É advogado, atleticano e nasceu em Peçanha/MG de onde nunca saiu totalmente. Gosta de se reunir com parentes e amigos para um café e outros líquidos, falar de livros e das muitas coisas que fazem a vida ficar boa, como apreciar músicas e leituras.

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